Inclusão financeira e segurança nas transações por aplicativos, novas plataformas para transações financeiras e algoritmos de biometria facial são temas que estão não só no foco de novas tecnologias no setor financeiro, mas que também levaram três fintechs brasileiras a vencer a disputa do CIAB Fintech Day neste ano.

A FullFace, startup especializada na identificação de pessoas por meio de algoritmo de biometria facial; a Ewally, empresa de tecnologia com uma carteira digital baseada em blockchain; e o Banco Digital da Maré, fintech social que atende regiões sem acesso ao sistema financeiro com um app de meio de pagamento, se destacaram entre as 14 finalistas de seis países que participaram do 28º CIAB FEBRABAN, maior feira do setor de tecnologia bancária e da indústria financeira da América Latina, e venceram a competição.

Luiz Michelini

Equipe da FullFace desenvolveu tecnologia que funciona com uma espécie de CPF facial de cada pessoa; precisão da biometria facial chega a 99%

As três empresas poderão apresentar seus projetos a executivos das principais instituições financeiras e as duas que obtiveram melhor avaliação – FullFace e Ewally – participarão da feira internacional Money 2020, evento que ocorrerá em Las Vegas (EUA) em outubro, com patrocínio do CIAB FEBRABAN.

Luiz Michelini

Integrantes da Ewally desenvolveram app para não bancarizados que permite fazer depósito, saque, ter cartão e pagar conta

Criada em 2013, a FullFace desenvolveu uma tecnologia que funciona com uma espécie de CPF facial de cada pessoa. “Pesquisamos muito o tema e, apesar de termos criado a empresa há mais tempo, sentimos que o mercado ficou mais maduro para as soluções que envolvem biometria facial só de dois anos para cá”, diz Danny Kabiljo, engenheiro civil e CEO da empresa. “Antes, nos consideravam muito futurísticos; algo que parecia realidade de filmes como Minority Report ou Star Trek”, brinca.

Com o sócio e CTO da empresa, José Guerrero, graduado em Sistema de Informação Universidade de Harvard e com doutorado no MIT (sigla em inglês para o Instituto de Tecnologia de Massachusetts), a FullFace criou, após dois anos de pesquisa, um algoritmo que permite fazer um reconhecimento facial “sob medida”, acessível a diferentes setores e tipos de negócio.

A companhia aérea Gol é uma das empresas que adotou o produto em seu check-in e a primeira do setor, no mundo, a usar a tecnologia de identificação de pessoas por meio de algoritmo de biometria facial da Fullface. “Já estamos completando um ano de uso e conseguimos aprimorar nosso algoritmo; a métrica é constante e posso dizer que a aplicação está estável”, diz o engenheiro.

A precisão da biometria facial chega a 99%, com 1.024 pontos da face analisados que geram, em tempo real, medidas e proporções capazes de permitir a geração de um código único para cada pessoa. Até então, o que existia no mercado mundial analisava 86 pontos. O software leva 0,05 décimos de segundo, por exemplo, para diferenciar dois irmãos gêmeos e também impede o uso de fotos para enganar o sistema.

A solução da Fullface já recebeu apoio de um grupo de investidores-anjos e a empresa foi convidada a se instalar no Cubo, do Itaú Unibanco, além de receber menção no relatório mundial do grupo Gartner, como uma das startups mais disruptivas do setor. A previsão é faturar R$ 2,5 milhões neste ano e a empresa negocia com duas instituições o algoritmo de biometria facial no setor bancário. A solução já é usada nos setores de saúde e educação e está em estudo no varejo.

Caixa eletrônico ambulante

Com a experiência que trouxe do setor de telecomunicações, de inclusão digital e do World Economic Forum, o engenheiro André Cunha, CEO da Ewally, mirou o setor financeiro com um objetivo: atender a população não bancarizada, quase 55 milhões de pessoas sem acesso a serviços como pagamento de ou transferência de dinheiro.

Foi assim que nasceu a Ewally em 2013 para democratizar serviços financeiros, usando sua formação de engenheiro. “A tecnologia é toda nossa. Qualquer pessoa em qualquer localidade pode fazer depósito, saque, ter cartão e pagar uma conta”, diz Cunha, ao explicar que o aplicativo atende também microempreendedores individuais – os MEIs. “São autônomos, gente que não tem condição de manter uma conta e pagar tarifas, e muitos estão com nome restrito. Criamos esse conceito de transformar cada ser humano em um caixa eletrônico ambulante, como se fosse um banco”, completa.

Mas como alguém pode ser um caixa eletrônico? Ele explica: “na prática, o app funciona como o Uber, que conecta um motorista a quem precisa do serviço.”

A pessoa faz tudo pelo celular, com a maioria das tarifas gratuitas; basta baixar o app e se cadastrar. O usuário tem de ter uma senha e a tecnologia usada tem mecanismo antifraude, explica o CEO da fintech.

Ao acionar o app da Ewally, a solução procura as pessoas mais próximas do usuário interessado em fazer a transação – como um saque, por exemplo. São os “agentes Ewally”, que recebem uma comissão a cada operação. “O sistema vai buscar o primeiro que aceitar a sua ‘corrida’, ou, a sua transação. Conecta as duas partes, e as coloca em contato para se encontrarem.”

Os dois lados podem conferir, por meio de comentários e notas concedidas por outros clientes do app, a eficiência de cada um e decidir se vão fazer a transação. Assim que é feita, o usuário também dá uma classificação para o serviço, como a nota que o motorista do Uber recebe.

A credibilidade do sistema vem dessa avaliação, ressalta Vitor Cunha, diretor da empresa e filho de André. “Se houver uma tentativa de fraude, nossos analistas já conseguem identificar, além de que essa pessoa já teria recebido nota zero de outro usuário.”

A Ewally já tem mais de 20 mil usuários e a meta é chegar a 2 milhões nos próximos cinco anos. Entre os usuários, a maior parte está na faixa de 18 a 35 anos, 55% são homens, espalhados por diferentes regiões do país – muitas delas sem acesso a lotéricas nem agências. Pelas regras atuais é permitida a movimentação de até R$ 5 mil por mês.

A startup foi escolhida para participar do programa internacional da Oracle, em que desenvolve um sistema específico de pagamento de contas, baseado na tecnologia de blockchain. Também foi uma das escolhidas no InovaBra, do Bradesco, e já passou por processo de aceleração da Artemisia, uma organização sem fins lucrativos, pioneira na disseminação e no fomento de negócios de impacto social no Brasil.

A empresa negocia a solução com um grande banco, além de uma parceria de negócios com a Cielo e já estuda a oferta de novos serviços. A concessão de crédito entre as pessoas (peer to peer lending), após o Banco Central regulamentar essa operação de empréstimos coletivos, é um dos negócios em desenvolvimento pela Ewally para 2019.

Para a criação da empresa, foram investidos inicialmente R$ 6 milhões, principalmente em tecnologia, e hoje a Ewally emprega 20 pessoas. “Pretendemos dobrar em breve”, diz Cunha.

Outro serviço que deve entrar em operação neste semestre é a transferência internacional de recursos – de quem está no Brasil para o exterior e vice-versa. “O objetivo é reduzir o custo da remessa, por volta de 50% e atender não só os EUA, mas também Japão e Cuba, por exemplo, com a população de médicos deste país que trabalham por aqui”, diz o presidente da Ewally.

WhatsApp dos bancos

Para atender as regiões sem acesso ao sistema financeiro e com foco na inclusão financeira, o analista de sistemas Alexander Albuquerque montou o Banco Maré, nome que surgiu em homenagem às 17 comunidades que compõe o Complexo da Maré, na zona norte do Rio, onde a startup começou a operar. São cerca de 200 mil moradores nesse conjunto de favelas.

Luiz Michelini

Grupo do Banco Maré fez app com base em blockchain, em que as pessoas podem comprar no comércio, por meio de QR Code, e também podem pagar contas

“A ideia inicial era atender um pedido dos líderes da comunidade para criar um meio de pagamento para os moradores porque não há agências no local e as pessoas têm de se deslocar, pegar ônibus para ir ao banco pagar uma conta ou fazer uma transferência”, conta Albuquerque.

“Com ajuda de amigos, criamos um aplicativo, com base em blockchain, em que as pessoas podem comprar no comércio local, por meio de QR Code, e também podem pagar suas contas”, explica. O app criado funciona como o e-Chat na China, que atende milhões de pessoas que usam a solução para pagar contas.

A antiga creche abandonada da Maré, antes sede da associação de bairro, onde os moradores iam buscar suas correspondências, virou a agência do banco virtual na comunidade. “Começamos com duas pessoas e hoje temos dez trabalhando, que foram contratadas da própria Maré, sete delas já cursando a faculdade”, diz o analista.

Após quase dois anos de preparação e R$ 500 mil investidos, a empresa passou por processos de aceleração, do Facebook e Artemisia. Agora já está chegando em comunidades de outras regiões do país, como na de Heliópolis (SP) e, ainda neste semestre, também em Paraisópolis (SP). No Rio, a expansão será para a Rocinha e Rio das Pedras.

Somente no complexo da Maré são 9 mil usuários; e a meta é chegar até dezembro com 120 mil clientes no país todo. Uma parceria com a Caixa deve levar os serviços do banco para a região de Arapiraca (PE), que podem ser estendidos para todo o Nordeste.

“Queremos ser o WhatsApp dos bancos: uma plataforma simples e usada por qualquer pessoa, de qualquer classe social”, diz Albuquerque. “É assim que vemos o acesso ao sistema financeiro.”

Além de um cartão pré-pago para pagar contas e uma moeda social – batizada de palafita em homenagem às primeiras casas construídas na Baía de Guanabara (RJ), – o banco está fechando parceria com a RioCard, para oferecer o serviço de recarga do bilhete único.

Gerente regional do banco, Jeane Oliveira é uma das moradoras de uma das comunidades da Maré, que precisava gastar quase R$ 8 de transporte público para chegar a uma agência bancária. “Precisava pegar um ônibus até Bonsucesso, levava uma hora para ir e voltar e fora o tempo na fila”, conta. “Um dia me apresentaram o banco, eu estava com bebê no colo e decidi dar um voto de confiança; daí para frente, virei cliente e depois funcionária.” “Comecei como atendente, na agência que funciona em parceria com o comércio lá na comunidade e hoje sou gerente regional do Rio. Com a ajuda do banco, estudo economia.”

App de monitoramento ganha disputa entre insurtechs

Um aplicativo de monitoramento preventivo que alerta autoridades e pessoas próximas do usuário sobre situações de perigo venceu a competição realizada pela primeira vez no CIAB FEBRABAN com as insurtechs, as startups de seguros. A solução da Nearbee inclui desde proteção familiar até rastreadores de bicicletas, animais domésticos e aplicações de segurança comunitária.

A plataforma apresentada pela Nearbee concorreu com mais 2 insurtechs: Bitix, plataforma de e-commerce para planos de saúde; e Straton Care Cyber, que faz comparação e contratação online de seguro cibernético.

O app permite que em emergências, o usuário consiga ajuda instantânea de amigos e familiares pré-cadastrados e socorristas voluntários; ofereça ajuda para pessoas próximas; e veja quantas pessoas próximas estão aptas a ajudar no momento em que for preciso.

Felipe Fontes, CEO e fundador da Nearbee, acredita que há um movimento de consolidação do “mercado da proteção”, que vai desde a proteção preventiva, como monitoramento eletrônico, até a reparação de danos, através de seguros. “Os clientes, cada vez mais, buscam soluções completas, que os protejam preventivamente, os ajudem em uma emergência e reparem eventuais danos”, afirma. “Assim, seguradoras têm a oportunidade de criar este tipo de canais de relacionamento e serviços aos seus clientes”, complementa. (Adriana Mompean)