“Ei! Você aí! Me dá um dinheiro aí! Me dá um dinheiro aí!” A famosa marchinha de carnaval reflete uma situação ainda bastante presente no Brasil: apesar da grande disseminação dos meios de pagamento eletrônicos, boa parte das transações ainda se dá por meio de papel-moeda ou cheques. Dados recentes da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito (Abecs) mostram que, em 2017, pela primeira vez, o volume transacionado por cartões superou o de dinheiro físico. E há um campo enorme para melhorar esse indicador. Com a adoção do P2P (peer to peer, na sigla em inglês) como sistema digital de pagamentos no Brasil – o que deve ocorrer em breve –, transferir recursos dependerá de poucos toques na tela do celular.

O pontapé final para que esse processo saísse do papel veio com a criação, em maio, do Grupo de Trabalho de Pagamentos Instantâneos pelo Banco Central. Todos os detalhes sobre como o P2P vai funcionar serão definidos a partir das discussões entre os participantes, mais de 90 instituições. Estão nesse conjunto tanto empresas de meios de pagamentos como instituições financeiras, fintechs, órgãos do governo e associações setoriais. Um primeiro esboço do modelo será apresentado em agosto, e os trabalhos terminam em novembro.

Alguns parâmetros gerais, no entanto, já estão definidos: a ideia é fazer do P2P um sistema de pagamentos que funcione de maneira descomplicada e que esteja disponível 24 horas, nos sete dias da semana – inclusive durante feriados. Será uma ferramenta mais fácil de usar, portanto, se comparada a métodos eletrônicos de transferência já conhecidos, como DOCs e TEDs. Também vai servir como uma solução “interoperável”, ou seja, que poderá ser usada entre clientes de diferentes instituições financeiras. As quantias enviadas, por exemplo, poderão ser debitadas tanto de uma conta corrente quanto de um cartão de crédito.

A adoção do P2P vai igualar o Brasil a outros países onde o sistema já é realidade. No exterior, a Mastercard conta com duas soluções nesse sentido. A VocaLink, empresa do Reino Unido adquirida em 2016, permite transferências entre contas correntes de modo praticamente instantâneo em mercados como Grã-Bretanha, Suécia, Cingapura e Estados Unidos. Na Tailândia, a ferramenta foi adotada em janeiro e, até o final de março, já contava com 40 milhões de usuários registrados. Existe ainda o Mastercard Send, cujo objetivo é facilitar transferências em tempo real de quase todas as contas de cartão de débito nos Estados Unidos, além de envios internacionais.

Esse conhecimento internacional pode ajudar na adoção de um sistema similar por aqui. “A Mastercard acredita que as transações P2P são fundamentais para a evolução do mercado brasileiro de meios de pagamento”, afirma João Pedro Paro Neto, presidente da Mastercard para o Brasil e o Cone Sul. “O consumidor terá formas mais simples, seguras e rápidas para pagamentos de bens e serviços.” Para o executivo, as vantagens incluem ainda o aumento da fidelização de clientes, a captura de novas receitas pelos emissores, a redução do volume de fluxo com baixo valor agregado nas agências e a melhoria da eficiência operacional e a redução de riscos e custos associados a valores em espécie e cheques.

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“O consumidor terá formas mais simples, seguras e rápidas para pagamentos de bens e serviços”

— João Pedro Paro Neto, da Mastercard

A possibilidade de fazer operações P2P a qualquer hora e de modo praticamente instantâneo também torna natural o uso de smartphones para essa tarefa. Toda transação será aprovada antes pelo banco de origem, o que garante a sua realização. Se a pessoa não tiver o dinheiro, a transferência não ocorre. Será possível também usar o cartão de crédito para enviar quantias. Nesses casos, o valor é debitado na próxima fatura. “O objetivo da indústria é aproveitar a infraestrutura do sistema brasileiro de pagamentos já existente, promovendo ganhos de escala sem necessariamente gerar um incremento de custos para os participantes da cadeia”, diz o presidente da Mastercard.

Adaptações necessárias

Isso não significa que as instituições financeiras não vão precisar se adaptar. Com a regulação do P2P, as fintechs devem abraçar o modelo com rapidez, acirrando a competição nessa área. “Estamos ajudando muitos bancos e fintechs a transformar a experiência e a jornada digital dos seus clientes”, afirma Fabiano Funari, vice-presidente sênior da Wipro. “Há muito trabalho a fazer na modernização do legado de infraestrutura dos bancos, que pode reduzir a velocidade dos pagamentos.”

Para competir com eficiência com as fintechs, as instituições financeiras tradicionais estão se transformando em empresas de tecnologia, o que inclui trocar equipamentos e software proprietário por outros de código aberto, usar a nuvem e agilizar processos, por exemplo.

A velocidade com que esse sistema pode ser adotado chega a impressionar. Hoje, um em cada três americanos já usa P2P. A Venmo, uma startup dessa área que foi adquirida pela PayPal, enviou US$ 35 bilhões em pagamentos no ano passado. Criada dois anos depois, a Zelle, sua concorrente, atingiu US$ 75 bilhões no mesmo período. O potencial é enorme. “Para cada 10 mil pessoas nos países emergentes, há apenas 1 ATM e 9 mil celulares”, destaca Funari. “São grandes mercados para a adoção do P2P.”

Outra preocupação importante deve ser com a área de segurança, uma vez que, dependendo do modelo de P2P adotado, basta um e-mail ou telefone para fazer o envio de dinheiro. De acordo com Funari, entre os riscos estão nomes fraudulentos de usuários, aplicativos não-confiáveis atrelados a contas de pagamento próprias e até mesmo QR codes para pagamentos que levam a URLs fraudulentas. Como as transferências ocorrem rapidamente, há o perigo de que o usuário caia em uma armadilha e mande o dinheiro para um criminoso virtual. “À medida que a adoção digital evolui para o P2P e outras áreas, os desafios em cibersegurança crescem exponencialmente”, diz Funari.

Por outro lado, os meios digitais permitem realizar transações menos arriscadas do que as que ocorrem hoje com dinheiro físico, tanto para pagadores como para recebedores. Não há risco de um assaltante levar o dinheiro, por exemplo, ou de a quantia ser perdida. A ideia é que todo o processo funcione de maneira descomplicada e intuitiva. “A experiência tem que ser agradável; isso é fundamental”, afirma Percival Jatobá, vice-presidente de Produtos, Soluções e Inovação da Visa do Brasil. O sistema a ser estruturado por aqui incluirá até mesmo a capacidade de enviar somas para outros países.

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“O mundo todo percebe isso como oportunidade de desenvolvimento”

— Percival Jatobá, da Visa

A regulação desse sistema de pagamentos deve levar o Brasil a impulsionar o P2P na América Latina, uma das regiões onde a tecnologia começa agora a despontar. “O mundo todo percebe isso como oportunidade de desenvolvimento”, ressalta Jatobá. Todo os detalhes estão sendo discutidos pelos representantes da indústria, para que a implementação ocorra da melhor forma possível. Segundo o executivo, a Visa tem participado ativamente dessas conversas, prestando assessoria técnica. “O mais importante é que, quando esse trabalho vier à tona, o consumidor, o cliente, se sinta muito bem respaldado e tenha um bom produto e uma boa solução para ser usada.”