Prepare-se para tirar uma selfie ao pagar contas, fazer saques ou transferências pelo celular, na agência ou no terminal de atendimento. Já usada em aeroportos internacionais, no check-in de companhias aéreas e em serviços do mundo digital, a biometria facial deve incorporar-se ao dia a dia das instituições financeiras no prazo de um a dois anos, segundo previsão de representantes do setor. O objetivo é combinar segurança e proteção, conveniência e agilidade.

A tecnologia de reconhecimento facial poderá, em breve, permitir até a troca de mensagens entre clientes e bancos no momento de realização de operações, e avança em ritmo acelerado. Há cinco anos, um quarto do mercado de biometria era concentrado em autenticação de face e de voz. Há dois anos, essa participação subiu para um terço, calcula oBiometrics Research Group, principal fonte de análises e pesquisas sobre o setor.

Nos Estados Unidos, a tecnologia é usada até por igrejas para identificar quem são seus seguidores. No Reino Unido, varejistas usam o sistema para detectar turistas que furtam objetos e souvenires em viagens – osshoplifters, crime fácil de cometer e difícil de combater. Na China, a biometria facial é usada para identificar motoristas em treinamento, permitir acesso a atrações turísticas e até comprar com apenas um sorriso, como relatou a revista “The Economist” em edição recente sobre o tema.

No Brasil, a Gol começou há pouco a usar o serviço Selfie Check-in , que permite aos passageiros de voos nacionais e internacionais fazer ocheck-in no app da companhia, com uma selfie.

A tecnologia da biometria facial deve se popularizar ainda mais a partir de novembro. Nessa data, a Apple começará a vender seu novo iPhone, o modelo X, sem o tradicional botão home, acionado pelo Touch ID, e com reconhecimento do rosto, pelo Face ID, para desbloquear a tela inicial.

Como o maior volume de transações bancárias é feito pelo mobile, o setor financeiro tende a ser um dos grandes beneficiários do uso da autenticação do rosto em smartphones. “O próprio hardware do cliente ajuda na adoção da tecnologia”, diz Adriano Volpini, diretor setorial da Comissão de Prevenção a Fraudes da FEBRABAN, ao lembrar a disseminação das câmeras em celulares e tablets, que facilita ainda mais o uso da nova solução biométrica.

Cibele Barreto

“O que eu tenho, senhas, tokens, o fraudador se esforça para ter acesso; o que eu sou, minha identidade facial, ninguém consegue fraudar”

— Adriano Volpini, diretor setorial da FEBRABAN

A segurança e o combate preventivo de fraudes também incentivam a difusão da tecnologia entre as instituições financeiras. “O que eu tenho, senhas,tokens, o fraudador se esforça para ter acesso; o que eu sou, minha identidade facial, ninguém consegue fraudar”, explica o executivo.

Como toda nova tecnologia adotada tem uma curva e um período de aprendizado, o prazo de um a dois anos é considerado o mais provável para que a biometria facial “pegue” no setor. Mas tudo também depende do “apetite” de cada organização, avalia o diretor da FEBRABAN.

A adesão a essa forma de autenticação ganha ainda mais impulso com soluções que as empresas de tecnologia de pagamento e cartão de crédito, como Visa e Mastercard, usam em suas parcerias com as instituições financeiras.

O banco Neon e a Visa lançaram, em maio, uma solução que permite aos clientes autenticar compras online por meio de selfies, quando o processo de verificação é solicitado pelo estabelecimento comercial.

A biometria facial já é usada por quase 60% dos 250 mil clientes. Outros 32% usam a senha numérica e 9%, a biometria digital. Quando a pessoa abre a conta no banco, ela envia foto de documentos, cadastra uma senha numérica, sua impressão digital e envia uma selfie, que é armazenada no banco de dados do Neon de forma criptografada. É essa imagem já cadastrada no banco que é conferida com a foto enviada para autenticar a operação.

Para evitar fraudes, a selfie precisa ser tirada no mesmo momento da confirmação da compra e a pessoa deve piscar – uma exigência extra para verificar que o portador do cartão está presente no instante da autenticação. O uso dessa tecnologia está limitado, em uma primeira etapa, aos casos em que o varejista entenda ser necessário fazer uma verificação adicional de segurança na operação.

A biometria facial é, definitivamente, um dos métodos mais seguros de autenticação, diz Alessandro Rabelo, diretor-executivo de Produtos da Visa do Brasil: 80 pontos da face do usuário são identificados, para validar a operação no sistema dos clientes do Neon. “É como se o cliente usasse uma senha de 80 dígitos em vez da senha tradicional, em média, com quatro a seis dígitos”, diz Rabelo. Desde o lançamento dessa forma de autenticação dos clientes do Neon, ele afirma que não houve problemas reportados de tentativas de fraude.

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“É como se o cliente usasse uma senha de 80 dígitos em vez da senha tradicional, em média com quatro a seis dígitos”

— Alessandro Rabelo, da Visa do Brasil

Na ocasião do lançamento da solução, Pedro Conrade, CEO do Neon, ressaltou que uma das preocupações é não deixar a tecnologia sobrepor-se à simplicidade do uso: “buscamos sempre entregar soluções eficientes sem deixar de ser simples para os clientes”, diz ele. “Ajudamos a criar uma forma de gerar ainda mais segurança para compras online, de forma intuitiva e prática para quem está na outra ponta”.

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Pedro Conrade, CEO do Neon, e Percival Jatobá, vice-presidente de Produtos da Visa do Brasil, usam celulares para fazer selfies na ocasião do lançamento de solução de reconhecimento facial para autenticar compras online

Inspiração

Além de atrair a atenção de bancos estrangeiros, a solução criada para o Neon movimentou o setor e deve servir de modelo para outras instituições. “As conversas estão avançadas, com ao menos quatros emissores. São inovações semelhantes [ao Neon], mas adaptadas às necessidades desses bancos”, diz o executivo da Visa, sem detalhar o que são e para quem são “as novidades que virão por aí”.

Desde o final do ano passado, a Mastercard, empresa de tecnologia que atua no mercado de pagamentos, também testa no Brasil aIdentity Check Mobile, tecnologia baseada em biometria e reconhecimento facial para verificar a identidade do portador do cartão e simplificar as compras online. “A solução já existe em 14 países. O dono do cartão não precisa mais guardar senhas, o que agiliza a experiência da compra digital e aumenta a segurança”, diz Valério Murta, vice-presidente de Produtos e Soluções da Mastercard Brasil e Cone Sul.

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Valério Murta diz que desde o ano passado, a Mastercard testa no Brasil a Identity Check Mobile, tecnologia baseada em biometria e reconhecimento facial para verificar a identidade do portador do cartão e simplificar as compras online

Aumentar o nível de segurança é mais do que necessário quando se considera que 61% dos brasileiros não mudam as senhas regularmente ao acessarem contas online e sites públicos, segundo pesquisa feita pela Mastercard.

A empresa também estuda e desenvolve outras formas inovadoras de autenticação das transações. Até pelo coração. “Em alguns países, já está em piloto a identificação por meio da sequência cardíaca, para ser usada em dispositivos wearables (os vestíveis, como pulseiras, relógios)”, diz o VP. “A impressão digital pela frequência do coração é uma identidade única.”

A Mastercard também lançou um cartão biométrico que combina a tecnologia do chip com impressões digitais. O produto, que já está em teste em um banco e numa rede de supermercados na África do Sul, deve chegar no futuro ao Brasil.

Após habilitar o cartão biométrico da instituição financeira e registrar a impressão digital, esse registro é transformado em um modelo digital criptografado e armazenado no cartão. Ao pagar uma compra em uma loja física, o cartão biométrico funciona como qualquer outro com chip: “É só inserir o cartão no terminal de um revendedor, enquanto coloca o dedo no sensor. A impressão digital é comparada com o modelo e, se a biometria corresponder, a transação é aprovada. Isso tudo sem o cartão nunca ter saído da mão do consumidor.”

Perdas ao setor

Os investimentos feitos pelo setor financeiro para obter sistemas mais eficientes de autenticação nas transações têm um motivo: a cada US$ 100 transacionados no mundo, US$ 0,06 são perdidos com fraudes, segundo dados globais da Visa.

A biometria, de uma forma geral, é considerada uma medida eficaz para combater fraudes na indústria de pagamentos e reduzir perdas financeiras para clientes e bancos.

A autenticação por impressão digital, por exemplo, já consegue barrar entre 70% e 80% das tentativas de fraude possíveis no setor financeiro. “Nos bancos de varejo, de uma forma geral, diria que estamos mais próximos dos 80%”, diz Volpini, da FEBRABAN.

O executivo compara a evolução da biometria ao avanço nas tecnologias de um método de segurança bem mais simples: a chave. “Você tem diferentes tipos chaves (biometria), desde aquela antiga, de uma caixinha de música, até uma chave tetra, que hoje seria a biometria por fingerprint”, afirma. “Diria que o reconhecimento facial é uma chave que está além da tetra, é ainda mais segura; mas ainda estamos em busca (de aperfeiçoamento, no setor financeiro)”, explica Volpini.

A adoção de novas tecnologias também é estimulada pelo ambiente mais atento em relação às fraudes, que impulsiona o desenvolvimento de novas tecnologias, inclusive as soluções de biometria facial. “Temos no Brasil um nível de conhecimento sobre a fraude e uma necessidade de tecnologia que desenvolve muito as soluções, justamente porque é necessário proteger mais o cliente”, completa Volpini.

A Stefanini Rafael, empresa que surgiu da coligação da Stefanini com a Rafael, da área de soluções avançadas de Inteligência e deCyber Defense (tecnologias militares adaptadas à área civil), já testa com três bancos uma solução apresentada durante o Ciab FEBRABAN deste ano de reconhecimento facial. “É uma solução com grande nível de precisão e que considera a identificação facial analisando até os vasos sanguíneos dos olhos”, diz Breno Barros, diretor de Inovação & Negócio Digital da Stefanini.

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“Se o indivíduo piscar uma só vez, ele tem acesso à conta normalmente. Mas, se piscar rapidamente duas vezes ou com um só olho, o banco pode receber um código, previamente estabelecido, que o cliente está sendo assaltado”

— Breno Barros, da Stefanini

A solução funciona com auxílio de big data emachine learning (inteligência artificial) não só para aprender o comportamento do usuário, mas inclusive descobrir seus hábitos, a partir de informações de redes sociais, e fazer análises detalhadas a respeito de cada perfil de cliente.

“A ideia é permitir que o uso da biometria facial agilize e facilite, por exemplo, a concessão de empréstimos, tanto para grandes valores como para o microcrédito”, diz Barros. “Há diversas possibilidades de uso para favorecer o cliente.”

Com a startup FullFace, a Stefanini também desenvolve técnicas que permitem o reconhecimento facial “sob medida”, acessível a todos os tipos de negócio – caso da companhia aérea Gol, que a adotou em seucheck-in.

“A precisão da biometria facial chega a 99%. São analisados até 1.024 pontos da face e geradas, em tempo real, medidas e proporções que possibilitam a criação de um código único para cada indivíduo”, diz o diretor da Stefanini.

Esses códigos podem ser padrões de segurança criados entre cliente e bancos. “Se o indivíduo piscar uma só vez, ele tem acesso à conta normalmente. Mas, se piscar rapidamente duas vezes ou com um só olho, o banco pode receber um código, previamente estabelecido, que o cliente está sendo assaltado e monitorar o acesso à conta, mostrando um saldo menor naquele momento.”

A eficiência da biometria facial levanta uma questão importante na avaliação de Ingrid Imanishi, gerente de Soluções Avançadas da empresa Nice, que atua com autenticação de voz em tempo real e prevenção de fraudes: a privacidade.

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Ingrid Imanishi, gerente de soluções avançadas da empresa Nice, diz que soluções estão em desenvolvimento, principalmente para dispositivos móveis: a chamada senha vocal ou CPF de voz

“As instituições financeiras têm demandado soluções de biometria de voz, que já estão em desenvolvimento, principalmente para dispositivos móveis; é a chamada senha vocal ou CPF de voz”, diz a executiva. “Nem todo mundo quer se mostrar, ter o rosto escaneado; há resistência por parte dos clientes em se expor, gravar um vídeo ou tirar uma selfie para provar sua identidade.”


Bancos já testam soluções de biometria facial

As principais instituições financeiras do país já estudam ou testam soluções próprias e do mercado para implementar a biometria facial ou por voz como forma de autenticar as transações bancárias. Mas isso não significa descartar o reconhecimento por impressão digital (fingerprint), tecnologia já incorporada ao cotidiano dos clientes.

Desde 2013, o Banco do Brasil intensificou a autenticação digital em seus terminais de autoatendimento (ATMs). São 28,5 milhões de usuários cadastrados e ativos, quase metade do total de clientes do banco. Os investimentos somam R$ 28 milhões nos últimos quatro anos.

Dos 38 mil equipamentos no país, 61% já adotam essa tecnologia e o banco espera atingir 100% em um prazo de até três anos, com a troca de terminais mais antigos. A autenticação por impressão digital também está sendo estendida às agências e aos caixas.

“Temos um número bem menor de eventos relacionados à fraude com clientes que passaram a adotar biometria; é uma camada extra de segurança que cria proteção adicional”, diz Alexandre Conceição, gerente-geral da diretoria de Tecnologia do Banco do Brasil. “É como a diferença entre um carro que tem alarme e tranca e outro que não tem.”

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“Temos um número bem menor de eventos relacionados à fraude com clientes que passaram a adotar biometria”

— Alexandre Conceição, do Banco do Brasil

Com a reestruturação feita no BB e o avanço na área digital, o banco estuda novas alternativas de autenticação. A facial é testada em soluções já existentes no mercado e em plataforma aberta do BB. “O reconhecimento de face segue o modelo de algoritmo de inteligência artificial, mas, para que a base de informações seja confiável, acima dos 95%, é necessário ter um volume de faces que permita treinar o sistema”, explica o executivo do BB.

Ele afirma que o banco está na fase de montar esse banco de imagens e treinar os algoritmos para que a autenticação facial ofereça um nível de segurança passível de adoção no sistema da instituição. A ideia é ter ao menos meio milhão de fotografias para iniciar a fase piloto com clientes, o que o BB estima ocorrer em um prazo de um ano.

O Bradesco adota o sistema PalmVein em 100% de seus 36 mil ATMS e 21 mil máquinas do Banco 24Horas. A solução, escolhida desde 2007, realiza a leitura das veias da palma da mão com corrente sanguínea ativa e é usada por 17,2 milhões de pessoas, que representam 55% do total da base de clientes.

Um sensor emite um feixe de raios infravermelhos em direção à palma da mão, e captura o padrão vascular com máxima precisão. A autenticação é realizada na comparação entre o padrão de veias detectado e a imagem registrada no momento do cadastro, explica Fabrizio Pinna, superintendente-executivo de Canais Digitais do Bradesco.

“Essa forma de autenticação foi escolhida pelo Bradesco por ser uma das mais seguras e não clonável, já que as veias da palma da mão são únicas, eliminando qualquer tentativa de fraude”, diz o executivo. “Uma vez posicionada corretamente, semelhante à posição do cadastramento, a biometria será validada com sucesso; o índice de assertividade (de confirmação da autenticação) é acima de 99%.”

O Bradesco investiu R$ 6,5 bilhões no ano passado em tecnologia e segurança para inovar e atualizar sistemas existentes, incluindo ATMS e demais canais digitais. Atualizações técnicas e de software devem ser feitas, ainda neste ano, no cadastro e no sistema de leitura dos terminais para tornar o serviço ainda mais ágil.

Dentre as soluções existentes para autenticar a identidade do cliente, o reconhecimento de voz é o mais próximo ao que o Bradesco deve adotar em seucall center e mobile, segundo o superintendente do banco. Mas sem prazo ainda definido para isso.

O sistema de voz é visto como menos invasivo que o facial por parte de alguns especialistas do setor financeiro, além de permitir a identificação em tempo real.

O Bradesco estuda ainda a autenticação facial de clientes em dispositivos móveis e nas agências desde 2015. “O desafio sempre foi encontrar uma solução robusta que consiga identificar tentativas de fraudes, pois, neste modelo, um fraudador pode se utilizar de fotos e vídeos da internet para tentar se passar por outra pessoa”, diz Pinna. Já, nas agências, a meta é encontrar uma solução eficiente e economicamente viável.

Na ponta do dedo

Usar a biometria facial no Itaú Unibanco depende ainda de uma solução “robusta”, que ofereça patamares de segurança e confiança comparáveis aos adotados na autenticação por impressão digital, informa Richard Bento, superintendente de Inspetoria e Prevenção a Fraudes do Itaú Unibanco.

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“O mercado tem avançado muito nos últimos anos em soluções de reconhecimento facial para uso no segmento financeiro”

— Richard Bento, do Itaú Unibanco

“O mercado tem avançado muito nos últimos anos em soluções de reconhecimento facial para uso no segmento financeiro; muitas melhorias ainda estão por vir, como é o caso de elementos que possibilitem a garantia de identificação de vida, principalmente pensando na migração para o mundo digital”, diz. “Quando pensamos no reconhecimento facial, entendemos que um bom caminho seja implementá-lo inicialmente para as iniciativas dodigital banking.”

O banco iniciou em 2012 o projeto de embarcar a tecnologia de biometria nos ATMs e, dois anos mais tarde, já contava com leitor biométrico em 100% dos 22,6 mil caixas próprios, além de terminais de caixa nas agências e das estações de gerentes.

Hoje, mais de 80% de correntistas pessoas físicas têm biometria cadastrada, o que significa perto de 23 milhões de clientes. “Especificamente onde a biometria é o modelo de autenticação adotado, considerando a robustez e a acuracidade da solução, podemos afirmar que mitigamos 100% das fraudes antes apresentadas”, afirma Bento, do Itaú. “Notamos importantes ganhos de eficiência, simplificação de processos e maior retorno na aprovação de propostas a partir da validação positiva do cliente.”

Além de estudar formas de autenticação que simplifiquem os processos com maior comodidade de uso, o Itaú criou um aplicativo para desktop para impedir, segundo o executivo, que vulnerabilidades nas máquinas dos clientes sejam exploradas.

Uma das razões para a escolha da impressão digital no Itaú, explica o executivo do banco, foi a popularização do uso em outros segmentos, como emissão de passaportes pela Polícia Federal, Justiça Eleitoral e controle de fronteiras americano. “Outro motivo é que essa utilização mais intensa obriga os fornecedores a manter a tecnologia sempre atualizada”, diz ele. “A última, e não menos relevante razão, é a busca por segurança, minimizando uma das fraudes mais comuns contra o sistema bancário, a de identidade”, afirma Bento.

“Quando se coloca uma digital na agência, é feita uma varredura na base de todas as digitais do banco para identificar se aquela impressão digital já foi usada por outra pessoa em algum momento; evitam-se fraudes, lavagem de dinheiro”, diz Adriano Volpini, diretor da FEBRABAN e também do Itaú, ao relatar que o ba4co estudou e adaptou o sistema de biometria por mais de um ano até difundi-lo aos clientes.

Cadastro multibiométrico

A partir do primeiro semestre de 2018, a Caixa vai iniciar um cadastramento multibiométrico (impressão digital e face) em todas suas agências, e expandir os serviços de biometria digital nas unidades lotéricas e nos ATMs. Hoje, 40% dos 28 mil terminais estão adaptados a essa tecnologia.

“A biometria de face já é usada em sistema interno da Caixa para conferência e auxílio na identificação cadastral de clientes, mas ainda não é utilizada em aplicativos”, informa Geraldo Gama Andrade, superintendente nacional de Segurança Empresarial da Caixa.

O banco já possui registros biométricos faciais provenientes de acordo de cooperação técnica firmado entre a Caixa e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e estuda o uso de reconhecimento facial e de voz para o uso no mobile. Os terminais de autoatendimento já possuem câmeras de registro fotográfico, o que facilita a possibilidade de captura da imagem do rosto do cliente, por exemplo, para o reconhecimento facial.

São 26 milhões de clientes cadastrados no banco no sistema de reconhecimento por digital. “A biometria da impressão digital já é utilizada por beneficiários do Programa Bolsa Família, seguro-desemprego e INSS, que têm cadastro biométrico com origem no acordo de cooperação com o TSE”, diz Andrade.

Para o banco, cada tipo de biometria possui características próprias em relação a desempenho, aceitabilidade, resistência à fraude e uso.

“Uma biometria poder ser a mais eficiente em um segmento e não ter o mesmo desempenho em outro: a impressão digital é indicada para os ATMs, a de voz, para a URA (Unidade de Resposta Audível), e a face é indicada para omobile”, afirma o executivo da Caixa. Com a biometria digital instalada nas agências, em caixas, ATMs e terminais financeiros das loterias, a Caixa estima uma redução superior a 50% em fraudes.

No Santander, as equipes de tecnologia da informação, gerenciamento do relacionamento com o cliente, marketing e negócios trabalham de forma integrada para desenvolver soluções ligadas à biometria, além de outras relacionadas à inteligência artificial.

Segundo o banco, nos últimos anos, o percentual alocado para projetos e iniciativas de biometria facial teve “significativo crescimento” e continuará crescendo ao longo dos próximos anos. “O banco Santander está trabalhando para entregar muitas novidades para os seus clientes que serão divulgadas em momento oportuno”, diz Cassius Schymura, diretor de CRM & Plataforma Multicanal do Santander. “Estamos nos preparando para o futuro, explorando o potencial de novas soluções e buscando extrair o maior valor agregado possível de cada uma delas.”

Luiz Michelini

“Estamos nos preparando para o futuro, explorando o potencial de novas soluções”

— Cassius Schymura, do Santander

Hoje, cerca de 7 milhões de clientes usam biometria nos caixas eletrônicos _ 100% deles já adaptados _ e dos terminais do Banco24horas, além de mesas de gerentes e caixas em 100% das agências. “A evolução é contínua porque estamos incentivando constantemente os nossos clientes a se cadastrarem, para terem mais praticidade, agilidade e segurança no acesso à conta”, diz o executivo do Santander. “Uma ação importante é o cadastro da biometria dos clientes logo na abertura da conta.”

Atualmente, a autenticação digital é usada também para acessar os apps Santander e Way, nos sistemas Android ou iOS, o que evita a necessidade de usar a senha numérica. O executivo confirma que a biometria contribui para a redução de fraudes, o que é um benefício para o cliente e para o banco. “Nos ATMs não temos registro de fraudes com o uso de biometria.”

Entre os bancos digitais, o Neon já lançou sua solução de reconhecimento facial em parceria com a Visa, usada por seis em cada dez clientes.

O Original informou que estuda o assunto, sem divulgar detalhes nem o número de correntistas. O banco Inter (antigo Intermedium) afirma que ainda não utiliza a biometria facial, mas está sempre “inovando e buscando soluções que proporcionem aos clientes melhor usabilidade e segurança”. Atualmente, o Inter possui mais de 245 mil correntistas. (Claudia Rolli)

A biometria no setor financeiro

Tecnologias que permitem autenticação facial e por voz devem avançar e coexistir com reconhecimento por impressão digital

Banco do Brasil

O que usa: Desde 2013 intensificou a biometria por impressão digital nos equipamentos de autoatendimento

Onde adota: 61,2% dos 38 mil ATMs do banco no país já têm essa tecnologia disponível; nos terminais de atendimento e agências está em processo de implementação; nos apps do banco e de cartões é possível fazer login por meio de Touch ID, quando aparelho celular dispõe dessa tecnologia

Quem usa: 28,5 milhões de clientes cadastrados e ativos de um total de 62 milhões de clientes do banco

O que estuda: soluções de biometria facial; para isso, está formando banco de imagens e testes que devem se intensificar, quando volume atingir 500 mil faces para treinar sistema a partir de algoritmos que permitem identificar condições múltiplas e confirmar a autenticidade de usuários

Bradesco

O que usa: autenticação por meio da Palm Vein, que realiza a leitura das veias da palma da mão com corrente sanguínea ativa. É adotada desde 2007

Onde adota: 100% das 36 mil máquinas de autoatendimento (ATMs) possuem a tecnologia e 100% das 21 mil máquinas do Banco 24Horas

Quem usa: 17,2 milhões de clientes cadastrados

O que estuda: biometria de voz para autenticar a identidade do cliente em dispositivos móveis (Bradesco Celular) e para call center, além de sistema de identificação de clientes em agências

Caixa

O que usa: a biometria por impressão digital é usada para autenticar transações de pagamento de benefícios (seguro-desemprego, bolsa família e INSS) e a imagem da face já é usada para consulta em sistemas de segurança e de conferência documentais

Onde adota: 40% dos 28 mil ATMs da Caixa contam com biometria de impressão digital. A partir do primeiro semestre de 2018, adotará o cadastramento multibiométrico nas agências (impressão digital e face), o uso da biometria nos canais lotéricos e a expansão de serviços com biometria nos ATMs. Os terminais de atendimento já possuem câmeras de registro fotográfico, o que possibilita a captura da imagem da face para o reconhecimento facial

Quem usa: o banco possui 26 milhões de registros biométricos

O que estuda: o uso da biometria de reconhecimento facial e de voz para uso no mobile e nas URAs (Unidades de Resposta Audível)

Itaú

O que usa: a biometria por impressão digital (fingerprint) é usada desde 2012 no autoatendimento; foi escolhida em razão de já ser adotada em outros serviços, como emissão de passaportes pela Polícia Federal, nos documentos da Justiça Eleitoral e no controle de fronteiras dos Estados Unidos, o que permitiu maior familiaridade dos clientes com essa tecnologia

Onde: 100% dos 22,6 mil caixas próprios permitem uso de biometria; terminais de caixa nas agências e estações de gerentes possuem leitor biométrico

Quem usa: mais de 80% dos clientes já possuem biometria cadastrada, o que significa mais de 23 milhões de pessoas

O que estuda: soluções de reconhecimento facial que possibilitem a garantia de identificação de vida, principalmente para as iniciativas do digital banking, com patamares de segurança e confiança comparáveis aos que adota na biometria de impressão das digitais dos dedos; e soluções multimodais, com biometrias adequadas para cada necessidade

Santander

O que usa: biometria por impressão digital nas transações bancárias e nos aplicativos Santander e Way, evitando que o cliente tenha que digitar a senha numérica. Para isso, o cliente precisar liberar a funcionalidade nos apps

Onde adota: 100% dos caixas eletrônicos, assim como os terminais do Banco 24 horas e mesas de gerentes e caixas físicos, em 100% das agências e apps

Quem usa: 7 milhões de clientes cadastrados

O que estuda: soluções ligadas a biometria e inteligência artificial para oferecer diferentes experiências aos clientes nos canais digitais; a troca de ATMS e equipamentos por máquinas que permitam funcionalidades digitais, como touch, e leitura de QRCode

Entre os digitais

Neon

O que usa: biometria facial pode ser usada nas compras online por clientes com cartão da bandeira Visa; o aplicativo do banco funciona de forma integrada com a plataforma da Visa e na hora da compra, o cliente pode enviar uma selfie para validar a transação, ou usar impressão digital, ou ainda a senha cadastrada

Onde adota: nas transações de compra com cartão Visa, quando o estabelecimento pede para autenticar a operação

Quem usa: dos 250 mil clientes, 58,44% utilizam a selfie, 32,12% a senha tradicional e 9,44% usam a biometria digital, quando o celular está habilitado para acesso por meio do app do banco

Inter

O que usa: impressão digital para login no aplicativo do banco

Quem usa: o banco tem hoje mais de 245 mil correntistas

O que estuda: ainda não utiliza biometria facial como fator de autenticação, mas busca soluções que proporcionem aos clientes melhor usabilidade e segurança; em breve deve lançar o Interpag, um meio de pagamento para tornar as transações mais rápidas, fáceis e seguras

Original

O banco informou que estuda o assunto de biometria facial, mas sem previsão de datas

Brasil está avançado no uso de biometria, dizem especialistas

Somente 4% das instituições financeiras dos Estados Unidos já usam a biometria facial para a autenticação de clientes. O resultado consta de um estudo da Celent, consultoria que formula estratégias de negócios e tecnologia para o setor financeiro.

“Outros países podem estar mais avançados nessa tecnologia”, diz Zilvinas Bareisis, analista sênior da Celent, ao se referir ao fato de que a biometria facial já é usada na Ásia e na América Latina.

O que chama a atenção no levantamento realizado em julho de 2016 com 25 instituições dos Estados Unidos é a descoberta de que 75% não tinham planos de investimento para adotar o reconhecimento facial, embora entendam que a autenticação e o gerenciamento de identidade são prioridades estratégicas para o futuro. Apenas 8% responderam usar a autenticação do rosto para abertura de contas.

“Os atacadistas da China usam o recurso para que os clientes se autentiquem pela face; na Argentina, o ICBC (Banco Industrial e Comercial da China) recentemente passou a oferecer essa forma de reconhecimento nomobile; no Brasil, a Visa e o banco Neon lançaram autenticação facial biométrica”, compara o analista da Celent.

As demandas dos clientes por conveniência e mais segurança, diante dos níveis crescentes de fraude, devem impulsionar a expansão da tecnologia. Tanto que mais de 80% das instituições acreditam que, em menos de cinco anos, o nome do usuário e a senha não serão mais formas dominantes delogin.

“Os resultados da pesquisa confirmam que a autenticação e gerenciamento de identidade são tópicos relevantes para instituições financeiras que passam por mudanças significativas", afirma Bareisis.

A visão é compartilhada por quem produz essa tecnologia para equipamentos usados pelos correntistas das instituições financeiras do país. “A biometria facial no sistema financeiro, no ambiente de agências e no autoatendimento deve se disseminar no prazo de até dois anos. O principal benefício é incrementar a conveniência, dando um salto no nível de segurança, de forma não invasiva”, diz João Lo Ré Chagas, gerente de produto e automações da Oki Brasil, fabricante de ATMs, que lida com grande variedade de demandas no setor financeiro. “Há bancos que buscam a biometria facial como um complemento à de impressão digital ou de leitura das veias das mãos, em que há uma camada adicional de segurança numa operação.”

Durante o Ciab FEBRABAN deste ano, a Oki apresentou uma solução em que é possível ao banco até finalizar automaticamente uma operação no ATM, caso o correntista saia do campo visual do equipamento. “Esse mecanismo também pode vincular os parâmetros faciais do correntista ao seu cadastro biométrico no banco, associando-o à impressão digital da pessoa. Assim, se o cliente só tem o cadastro de impressão digital e autentica-se numa sessão do ATM, a biometria facial pode incorporar aquela imagem ao cadastro dele automaticamente”, explica o gerente da empresa. “E, mais tarde, essa mesma imagem poderia ser usada na autenticação por reconhecimento facial no smartphone.”

Dos quase R$ 50 milhões que a Oki Brasil investiu em 2016 em pesquisa e desenvolvimento, a maior parte foi direcionada ao desenvolvimento de tecnologias de biometria facial, em sistemas próprios e em convênios com universidades brasileiras.

100% seguro?

Especialistas em segurança da informação e analistas da Celent reconhecem os avanços que podem ser feitos com a biometria facial, mas discordam de quem afirma que a tecnologia é 100% eficiente.

“Não concordamos particularmente que a biometria facial seja mais segura do que a voz ou do que a autenticação por meio de impressões digitais. Nenhuma (solução) é 100% à prova de falhas, e depende da segurança da tecnologia específica e da sua implementação”, diz Joan McGowan, também analista sênior da consultoria.

Ingrid Imanishi, gerente de soluções avançadas da empresa Nice, que atua com autenticação de voz em tempo real e prevenção de fraudes, concorda. “Não se pode dizer que exista 100% de segurança. Mas há soluções, como as de biometria de voz, em que, para autenticar a identidade de um cliente, pode-se chegar a 99% de precisão”, diz. (Claudia Rolli)

FEBRABAN e Polícia Federal reforçam combate à fraude

O combate às fraudes bancárias eletrônicas praticadas por organizações criminosas nos cartões de débito e crédito, internet banking,call centers e boletos ganhou reforço com a renovação, em setembro, do acordo de cooperação técnica entre a FEBRABAN (Federação Brasileira de Bancos) e a Polícia Federal.

O acordo vai permitir intercâmbio mais ágil de informações, troca deknow-how em tecnologia e o trabalho integrado de equipes das instituições. Assim, a Polícia Federal poderá contar periodicamente com o envio de analistas das instituições financeiras a Brasília para fortalecer o trabalho de inteligência na repressão a esse tipo de crime.

“A renovação do Acordo de Cooperação Técnica vai agilizar o processo de comunicação e inteligência no combate às fraudes bancárias”, afirma Leandro Vilain, diretor de Negócios e Operações da FEBRABAN.

O executivo ressalta que a iniciativa faz parte de um conjunto de ações dos bancos em parceria com governos, polícias e com o Poder Judiciário no combate a crimes no segmento financeiro.

O objetivo do compromisso com a PF - que ganhou, entre os participantes, o nome de “Tentáculos” - é mapear de forma mais rápida a ação de fraudadores que agem de forma individual ou coletiva, e fechar o cerco aos crimes na internet.

O nome do acordo tem como referência operações policiais que já ocorreram no país para investigar e prender quadrilhas especializadas em clonagem de cartões, em operações indevidas, além de furto de cartões e informações do sistema financeiro.

“No passado, não tínhamos tanta tecnologia, não tínhamos tanta parceria”, disse o diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello, na ocasião da assinatura do o acordo. Ele ressaltou a importância da cooperação dos bancos com os investigadores e propôs à FEBRABAN discussões para uma futura parceria público-privada voltada ao combate de crimes cibernéticos.

FotoAndres

“O setor bancário destina cerca de 10% dos investimentos anuais em tecnologia da informação em ferramentas destinadas a evitar possíveis tentativas de fraude”

— Cassius Schymura, do Santander

O acordo assinado permite compartilhamento de informações e de tecnologias no combate aos crimes eletrônicos, visando à segurança das instituições financeiras e da sociedade beneficiada pelo setor bancário. As informações estruturadas entregues às autoridades policiais permitirão identificar omodus operandi dos criminosos e apontar caminhos para as investigações.

“Quanto mais formos eficientes na causa, na raiz, mais as pessoas ficarão atentas e maior será o estímulo para inibir essas práticas”, diz Adriano Volpini, diretor setorial da Comissão de Prevenção a Fraudes da FEBRABAN. “Os bancos têm total interesse em ajudar não só a PF, mas a sociedade em geral”, comenta.

O termo prevê, ainda, o desenvolvimento de estudos técnicos e profissionais, bem como a elaboração e produção de documentos de segurança para uso nas atividades de inteligência.

O convênio regulamenta os procedimentos dos bancos para comunicar, à Polícia Federal, suspeitas ou confirmação de práticas de ilícitos penais. Também trata do compartilhamento de informações sobre movimentação de recursos financeiros relacionados a crimes contra instituições financeiras.

Na assinatura do primeiro acordo, firmado em 2009, cerca de 15 bancos, que representam mais de 90% do mercado bancário, aderiam à iniciativa. Com a renovação do acordo, deve aumentar o número de instituições financeiras fornecedoras de informações importantes para a repressão ao crime organizado.

De acordo com a FEBRABAN e com a Polícia Federal, o envio de informações é necessário para centralizar na PF a comunicação sobre a prática de fraudes eletrônicas em contas de depósitos mantidas pelos bancos.

Com o acordo, a investigação policial poderá contar com mais condições de identificar organizações criminosas, conhecer melhor omodus operandi das quadrilhas e desenvolver novas técnicas e tecnologias de prevenção e repressão a esses tipos de crimes.

O diretor da FEBRABAN Leandro Vilain ressaltou, ainda, que a segurança para a realização das operações financeiras é uma das preocupações centrais dos bancos brasileiros. “O setor bancário destina cerca de 10% dos investimentos anuais em tecnologia da informação, cerca de R$ 2 bilhões, em ferramentas destinadas a evitar possíveis tentativas de fraudes, além de garantir a confidencialidade dos dados dos clientes e a eficiência no uso dos canais eletrônicos”, informou. (Claudia Rolli)