A nuvem é irresistível; é mais simples e barata. Nos próximos cinco ou dez anos, as empresas que não a adotarem cairão na obsolescência.” O prognóstico foi feito pelo celebrado escritor americano Nicholas Carr, em 2008, durante o lançamento de seu livro “The Big Switch”, em que projetava um avanço inexorável da computação em nuvem, definida por Carr como “a nova eletricidade, que vai dinamizar todos os setores da economia”.

Uma década após a previsão do pesquisador americano, não é possível afirmar que ele tenha errado. Tampouco dizer que acertou. Um estudo da consultoria Ovum, feita a pedido da SAP em 2016, indica que 42% dos bancos no mundo usam soluções baseadas em nuvem. No Brasil, não há um grande banco que não tenha projetos importantes sustentados por cloud computing. Apesar disso, as promessas mais ousadas de economia de recursos e migração de softwares antigos para plataformas em nuvem seguem como apenas, bem, apenas promessas.

De acordo com Ítalo Marcus Freitas, gerente executivo de TI do Banco do Brasil, há muitos custos escondidos em projetos de nuvem, além de restrições legais para a adoção dessa alternativa. “Há algumas aplicações financeiras que, por questões de contrato e privacidade dos correntistas, não podem ser hospedadas em servidores fora do Brasil, o que impede o uso de nuvem pública internacional” afirmou Freitas, durante o Ciab FEBRABAN 2017. “Há também contas complexas na hora de calcular as economias geradas pela solução e os gastos feitos com a adaptação de softwares antigos para rodar em nuvem.”

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Ítalo Freitas, do Banco do Brasil, afirma que a nuvem permite inovar mais rapidamente, mas ressalta que solução nem sempre é a mais barata

Apesar das restrições, o BB mantém 7 mil servidores virtuais rodando aplicações em nuvem, a maior parte deles para atender o tráfego de mobile banking do Banco do Brasil. “É inegável que a nuvem nos permite inovar mais rapidamente e, por isso, não podemos ficar de fora deste processo. Mas temos a consciência de que, ao contrário das promessas iniciais, nem sempre a nuvem é mais barata”, afirma Freitas.

Conceito promissor

O termo “nuvem” refere-se ao uso de memória e processamento computacional remotos. Serviços populares como o Dropbox, Google Docs e iCloud são exemplos de nuvem. Em lugar de instalarmos um software processador de texto em nosso computador pessoal, por exemplo, podemos, por meio de nosso navegador, acessar uma aplicação em um servidor remoto do Google ou da Microsoft, por exemplo.

No setor corporativo, essa opção pode gerar economias gigantescas. Imagine um banco que deseja lançar um novo app ou serviço conectado. Em vez de comprar uma centena de servidores para hospedar a nova solução, ele pode “alugar” essa capacidade computacional de um provedor de serviços em nuvem, como Dell, Google ou Amazon e testar a ideia. Se o serviço for um fracasso, cancela-se o aluguel. Se for um sucesso, aumenta-se o volume de capacidade computacional contratada, processo chamado de “escalabilidade”. Welson Barbosa, diretor de Negócios para Nuvem da Dell no Brasil, afirma que a invenção da nuvem acelerou a inovação em múltiplos setores da indústria, inclusive financeira, por permitir testes de novos projetos sem, necessariamente, investir dinheiro em novas máquinas.

“Não é à toa que muitas fintechs se apoiam exclusivamente em nuvem, pois elas não gastam recursos com infraestrutura imediatamente, têm agilidade para implementar novas ideias e podem crescer rapidamente, graças à escalabilidade”, afirma Barbosa.

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Welson Barbosa, da Dell, diz que a invenção da nuvem acelerou a inovação em múltiplos setores da indústria, inclusive financeira

Entre as características mais elogiadas do uso da nuvem, além da redução do investimento imediato, está o fato de ela permitir que dados do cliente e da empresa sejam acessados por múltiplas aplicações, de diferentes lugares. Daniel Ferreti, superintendente de Marketing e Canais do Santanter no Brasil conta que a adoção de nuvem para algumas aplicações da instituição permitiu ao banco criar formas mais personalizadas de fazer marketing, dar suporte remoto ao cliente e mesmo dar atendimento especial a correntistas que movimentam pouco dinheiro. “Com a nuvem, vêm o big data e mais ferramentas de analytics (análise de dados coletados do usuário”, comentou o executivo, durante participação no Ciab FEBRABAN 2017. “Na ponta, isto permite conhecer melhor nosso correntista, atendê-lo de forma mais apropriada e, consequentemente, torná-lo mais fiel.”

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Daniel Ferreti, do Santander, afirma que a adoção de nuvem para algumas aplicações permitiu ao banco criar formas mais personalizadas de fazer marketing e dar suporte remoto ao cliente

Dificuldades limitam expansão

Se há tantas vantagens em termos de custo e inovação, afinal, por qual motivo a nuvem não se tornou totalmente dominante no setor bancário? Confiabilidade e segurança são dois motivos comumente apontados por especialistas.

Diferentemente de uma máquina hospedada no data center do banco, o uso de nuvem pública (quando aplicações de terceiros rodam simultaneamente em máquinas fora da estrutura do banco) exige confiar que um provedor independente vá cuidar tão bem dos dados do cliente quanto o banco cuidaria. Mais do que isso, é preciso acreditar que o terceiro manterá o serviço rodando, no ar, o tempo todo e a salvo de hackers. “Há razões técnicas e culturais para os bancos verem com um pé atrás esta situação e, por isso, darem passos cautelosos em sua direção”, afirma Ítalo Freitas, do BB.

Softwares antigos, desenvolvidos ao longo das décadas de 80, 90 e mesmo início dos anos 2000, também não podem ser facilmente migrados para nuvem. A eles dá-se o nome técnico de “legado”, ou seja, soluções desenhadas originalmente antes da invenção da nuvem, que certamente não são o “estado da arte” da tecnologia, mas funcionam perfeitamente, atendendo às exigências de bancos e correntistas.

Segundo Boris Kuszka, arquiteto de soluções da Red Hat, empresas de tecnologia em todo o mundo têm se esforçado para encontrar soluções que permitam aos bancos desfrutar dos benefícios da nuvem ao mesmo tempo em que se protegem dos riscos da migração, como a criação de nuvens híbridas com cache. Em linguagem não técnica, isto quer dizer organizar um mix de uso de nuvem pública (mais barata, porém com mais riscos associados) com nuvens privadas (um tipo de nuvem usada por um único cliente e totalmente sob seu controle, solução mais cara, porém com menos riscos envolvidos) aliadas a uma camada adicional de memória (cache), que copia dados antigos para servidores novos, permitindo que estes sejam acessados mais velozmente.

“Sempre foi improvável que um setor tão preocupado com segurança, até por questões culturais, mergulhasse de cabeça na nuvem pública, mesmo que esta tenha os critérios mais sólidos de criptografia”, diz Kuszka. Verificamos com muita força, porém, no uso de soluções híbridas pelos bancos.”

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Boris Kuszka, da Red Hat, diz que empresas de TI têm se esforçado para achar soluções que permitam aos bancos desfrutar dos benefícios da nuvem ao mesmo tempo em que se protegem dos riscos da migração

Nesse cenário, softwares antigos (legados) dos bancos passam a ser migrados gradualmente para uma nuvem privada, ou seja, cria-se uma arquitetura de nuvem, porém sob total controle da instituição financeira, com servidores físicos instalados em sua sede. Este modelo, de nuvem privada, é usado também para armazenar informações críticas, como dados dos correntistas, históricos de transações e contratos digitais. Aplicações não essenciais, como a automação de redes e atividades operacionais da TI de um banco podem ficar hospedadas em nuvem pública. Em meio a este processo, instituições de credibilidade, como o Banco Central, devem estruturar seus próprios centros de processamento, a serem oferecidos para bancos públicos e privados como “transbordo”. A ideia é simples: se a nuvem privada do banco A tiver um pico de acessos, pode-se usar, temporariamente, a capacidade computacional de uma instituição terceira, no modelo nuvem pública.

Ainda que as promessas desenhadas há uma década não tenham se realizado completamente, é consenso entre os executivos dos bancos que a nuvem continua irresistível, como previu Nicholas Carr. Se não avançam em velocidade de cruzeiro, como imaginado, todos os fatores apontam para uma brisa leve e constante, espraiando a computação em nuvem para cada ponto da TI bancária.