Lançamentos baseados em biometria, dispositivos vestíveis e internet das coisas começam a concretizar tendências, virar negócio e a reconfigurar o setor de meios de pagamento. Mas nem só das novas tecnologias vive a inovação no setor. Além da consolidação de produtos como carteiras digitais, surgem modelos de negócios diferenciados com a evolução dos marcos legais e inspiração das fintechs, como a plataforma Digio, do banco CBSS, na esteira do Nubank.

Novidades que já estão no mercado e tendências de novas soluções e produtos foram apresentadas ao público no Ciab FEBRABAN 2017. Durante os três dias do congresso de TI para o setor financeiro, a Mastercard mostrou solução de pagamento de pedágio com uso de cartões, celulares e dispositivos vestíveis, como pulseiras. O produto nasce em parceria com a EcoRodovias, administradora do sistema Imigrantes, da rodovia Ayrton Senna e da ponte Rio-Niterói, e dona da Sem Parar. O primeiro emissor é o Santander e, de início, o produto atende motociclistas. Os primeiros testes começarão em breve, ainda sem data definida.

O Banco do Brasil também apresentou pulseira de pagamentos que funciona como espelho do cartão principal, custa R$ 70, sem anuidade, e tem funções débito e crédito. “Em três dias depois do lançamento, em 1º de junho, tivemos três mil solicitações”, comemorou o diretor de Meios de Pagamento do BB, Rogério Panca.

A pulseira tem um chip embutido e permitirá pagar compras de até R$ 50 sem contato nem senha: o lojista diz qual é a forma de pagamento escolhida pelo cliente, débito ou crédito, digita o valor e solicita ao usuário que aproxime a sua pulseira da maquininha. O pagamento é concluído em poucos segundos. A estimativa é liberar 10 mil unidades até agosto. O banco criou campanha para divulgar o uso do smartphone para pagamento por aproximação com uso da carteira digital.

Apesar da massificação do uso do celular no Brasil, seu emprego como meio de pagamento ainda é incipiente. No Itaú Unibanco, responsável por quase 40% do mercado de cartões de crédito do país em 2016, o celular é usado para 75% dos contatos em canais de relacionamento e operações, para consulta de extrato ou pagamento de contas. Mas responde por menos de 10% das operações de aquisição e bens ou serviços, feitas, na grande maioria, por meios de pagamento como os cartões, dinheiro ou cheques, segundo o diretor de Produtos e Pagamentos Digitais do Itaú Unibanco, Rubens Fogli.

O Brasil e a biometria

A evolução da biometria foi um dos destaques do Ciab FEBRABAN 2017. A Visa levou ao congresso de tecnologia uma máquina de vendas com autorização de compra por reconhecimento e autenticação facial. A startup Fullface levou a tecnologia de reconhecimento facial com algoritmo capaz de checar 1.024 pontos dos rostos e a Saffe apresentou sua tecnologia de autenticação por selfie.

John Sheldon, vice-presidente de Inovação do Mastercard Labs, detalhou um teste feito na África do Sul com cartão turbinado com leitor de impressão digital, cadastrada no emissor para autenticação no momento da compra. Em 2016, a empresa lançou mundialmente a solução Identity Check Mobile, já empregada em 16 países, mas ainda não adotada no Brasil, com autenticação digital e facial que pode eliminar o uso de senhas. “A biometria aumenta a segurança”, defendeu.

Depois de adotar a biometria em caixas eletrônicos, o Brasil está preparado para inserir a tecnologia no setor de meios de pagamento. “Basta estender o uso”, disse o vice-presidente de Produtos de Risco e Autenticação da Visa, Mark Nelsen, durante palestra no Ciab FEBRABAN.

A possibilidade de usar o próprio corpo para realizar pagamentos foi defendida pelo CEO do banco CBSS, Carlos Giovane Neves. O uso pode se dar como uma carteira ou aplicativo apoiados em biometria e inteligência artificial, com funções como reunir dados e posição financeira de diversas instituições e monitorar fluxo de caixa, benefícios e programas de recompensas de diversos cartões, com parâmetros para tomada de decisão.

Luiz Michelini / FEBRABAN

Visa levou ao congresso de TI máquina de vendas com autorização de compra por reconhecimento e autenticação facial

Novos modelos

Antes de chegar lá, o CBSS atua com outras linhas de inovação. O banco pertence à Elopar, holding do Bradesco e do Banco do Brasil. Nasceu em 2016 e tem 450 mil cartões de crédito ativos, além de produtos como empréstimo pessoal e capitalização distribuídos pela promotora de vendas Ibri e por correspondentes, como Lojas Americanas, parceira na distribuição de empréstimos.

Este ano o banco criou a plataforma digital Digio, que já conta com 100 mil cartões gratuitos emitidos. A novidade é a forma como o banco é remunerado pelo serviço. O segundo produto a ser lançado em breve na plataforma é o crédito direto ao consumidor (CDC) online, que permitirá pagamento na internet com crédito, débito, boleto ou em até 24 parcelas apoiado por inteligência artificial que reconhece o cliente sem que ele precise preencher dados na finalização da compra, identificando, por exemplo, se o dispositivo ou o endereço de entrega já foram usados para transações online.

O próximo passo é o lançamento da Digio Store, aplicativo onde o usuário pode adquirir outros apps, serviços e assistência e, em breve, contratar empréstimos. Tudo de forma digital.

O Hipercard, cartão de crédito sem anuidade do Itaú Unibanco, também busca gerar receitas para o banco via crediário, aproveitando a recente autorização do Banco Central para a cobrança de valores diferenciados nos pagamentos em cartões, explicou o diretor executivo de Cartões,Veículos e Financeiras Marcos Antonio Vaz de Magalhães.

Regulação

Para o diretor executivo do Bradesco, Rômulo Dias, a regulação ajuda o setor a enfrentar a queda de rentabilidade provocada pelo aumento da concorrência. Mas a recuperação das margens apoia-se também em redução de despesas, inovação e diversificação. “Por diversificação entenda-se entrar em mercados, produtos e geografias pouco explorados”, detalha.

Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) relativos ao primeiro trimestre deste ano confirmam os impactos da regulação e da diversificação no setor. Em dois meses, a nova regra para o crédito rotativo implantada pelo Banco Central fez a taxa média anual de juros despencar. Na quarta semana do mês de março, a taxa anual na média dos emissores estava em 455,4%. Na quarta semana de maio, chegou a 207,9% entre os maiores emissores, uma queda de 54%. A pesquisa mostrou também oportunidades de reforçar a entrada dos produtos em mercados antes pouco explorados, já que as taxas de crescimento das regiões do interior do país são superiores às das capitais, destacou o presidente da Abecs e CEO da Rede, Fernando Chacon.

Para João Pedro Paro Neto, presidente da Mastercard Brasil e Cone Sul, em um cenário tão diversificado, o caminho é entender o que o consumidor quer usar, e quando. “Ele [o consumidor] vai determinar o futuro dos pagamentos”, disse. Para conhecer melhor os desejos dos clientes, a Elo, segundo descreveu o diretor de Marketing da empresa, Luis Cassio Oliveira, iniciou estudos etnográficos (levantamento da cultura e o comportamento de determinados grupos sociais), com entrevistas em todo o país, para detalhar a rotina dos consumidores.

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Mastercard mostrou solução de pagamento de pedágio com uso de cartões, celulares e dispositivos vestíveis

Já a Visa aposta na inovação aberta, inclusive com participação de startups, para trocar a identidade de fornecedora de meios de pagamento pela de fornecedora de plataformas (middleware) sobre as quais são construídas soluções. Até a tecnologia blockchain, que sustenta a moeda digital bitcoin, está sendo testada, em parceria com a startup Chain, na plataforma B2BConnect, para validar pagamentos entre empresas, segundo informou o country manager Fernando Teles. O pagamento em bitcoins também começa a chegar ao mundo físico. A Muxi apresentou uma plataforma com terminais (POS) que aceita a moeda e pagamentos sem contato. O pagamento entre coisas, outro destaque do Ciab 2017, foi além dos dispositivos vestíveis. A Cielo demonstrou o uso da plataforma de captura de pagamentos Lio com leitura de QRCode, um código de barras bidimensional. A Visa, por sua vez, levou um protótipo de carro conectado, habilitado a identificar o esvaziamento do tanque, apontar postos de gasolina próximos e fazer o pagamento do combustível.

ATMs mais inteligentes integram o mundo físico ao digital

Serviços e funções bancárias antes restritos às agências começam a estar disponíveis também nos caixas eletrônicos, os ATMs. Novidades apresentadas no Ciab FEBRABAN 2017, como transações por aproximação (NFC), leitura de QR Code, videoconferência, biometria facial e reciclagem avançada aumentam a sofisticação dos caixas eletrônicos e permitem maior integração com outros canais de atendimento e operação, como dispositivos móveis.

No Pará, até pessoas sem conta bancária podem remeter dinheiro para centenas de locais no país, por meio de um serviço da rede gaúcha de autoatendimento Saque e Pague, que demonstrou, durante o congresso de TI, solução em uso no Banco do Estado do Pará (Banpará) desde fevereiro, com mais de 40 transações, incluindo emissão de cartão de conta corrente, atendimento por videoconferência, saques e depósitos com uso do celular e agendamento de transações a serem concluídas no terminal.

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Oki Brasil apresentou o ATM Adattis Compacta Saque, que permite autenticação do correntista por biometria facial, leitura de impressão digital e ainda pelo recurso de palm vein

Um desses novos serviços é o Transfere Rápido, para remessa de dinheiro entre pessoas sem conta bancária para qualquer local e banco do país ou para contas digitais. O usuário faz a movimentação usando um celular e o destinatário recebe um SMS com um token informando quem depositou o dinheiro e como a retirada pode ser feita em um terminal Saque e Pague. Outro é o Recibo Eletrônico, para emissão de recibo gerado por QR Code (código de barras dimensional) na tela do terminal, que, no celular, transforma-se em recibo da transação. “Nossas operações visam atingir tanto consumidores bancarizados quanto não bancarizados”, explica o presidente da empresa, Givanildo da Luz.

A solução criada para o Banpará emprega o ATM 6750, da Diebold Nixdorf. Além de permitir abertura de contas no dispositivo móvel com criação de senha e emissão do cartão pelo terminal, o equipamento tem leitor de NFC e QRCode para operações sem contato físico.

“Podemos oferecer todo o serviço de uma agência convencional de maneira 100% digital”, diz Elias da Silva, presidente da Diebold Nixdorf no país. A marca apresentou no Ciab FEBRABAN um terminal inédito com aparência e modo de operação parecidos com um smartphone gigante inserido na parede, que eliminou botões e impressora com uso da tecnologia multitouch (que permite o reconhecimento da presença de dois ou mais pontos de contato com a superfície), autenticação NFC e recibo eletrônico.

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Diebold Nixdorf mostrou terminal com tecnologia multitouch, autenticação NFC e recibo eletrônico

Biometria

A biometria multifatorial foi destaque da Oki Brasil. O modelo de ATM Adattis Recycler permite que operações agendadas em smartphones sejam validadas com biometria facial e concluídas no ATM com uso de impressão digital. A solução Face-Tracking realiza autenticação contínua do correntista por biometria facial durante as operações – caso ele saia do campo visual do ATM, uma operação em andamento pode ser finalizada automaticamente. A empresa também mostrou o ATM Adattis Compacta Saque com autenticação do correntista por biometria facial e também com leitura de impressão digital e o recurso de palm vein (veias da palma da mão).

“A Oki Brasil está pronta para apoiar o processo de transformação digital dos bancos”, diz o presidente e CEO Wilton Ruas. Os equipamentos recicladores podem trabalhar com diversas moedas ao mesmo tempo e fazer câmbio de dólares por euros ou reais, incluindo moedas digitais como o bitcoin. Isso graças ao leitor ótico bidimensional que, além de ler os códigos de barras das contas, reconhece QR Codes impressos ou em telas de celulares, como os usados no câmbio de moedas digitais.

Os ATMs também aceitam depósitos em maços de notas, sem envelopes e com crédito em tempo real na conta do correntista. A empresa estima que, dos 185 mil caixas eletrônicos em operação no Brasil no ano passado, menos de 1% eram recicladores.

O apoio ao emprego da biometria foi o foco de diversos expositores do Ciab. A HID Global, que, no Brasil, apoia cerca de 4 bilhões de operações bancárias ao ano em ATMs espalhadas pelo país, mostrou sensores com tecnologia multiespectral e capacidade de detecção de “dedo vivo” (que impede fraudes com cópias de silicone ou outro material) e identificação de usuários mesmo com dedos sujos, engordurados, molhados, desgastados ou machucados.

A Formalizar e-Signature lançou produtos como Assinatura de Analfabeto e Assinatura no Smartphone com base em sua tecnologia de assinatura eletrônica com biometria manuscrita, que captura fatores comportamentais como pressão, velocidade, movimento aéreo, ângulo, aceleração e ritmo.

A Recognition é outra que demonstrou soluções para assinatura biométrica, fruto da parceria com a alemã Signotec – a empresa também levou seus terminais de captura remota (TCR), para autoatendimento e depósito de cheques online, sem envelope, com captura de imagem.

Integração de canais

Já a NCR investe no conceito de integração de canais (omnichannel) e lançou a série de ATMs SelfServ 80. Multifuncionais e recicladores, os dispositivos permitem função multitouch e funcionalidades como assinatura direto na tela, tela de 15 ou 19 polegadas, ofertas promocionais personalizadas, tecnologia sem contato, áudio incrementado para deficientes visuais e funções como Picture in Picture (tela dentro da tela) com capacidade de mostrar o ambiente ao redor para maior segurança do usuário.

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Terminal de captura de pagamento (POS) multifuncional Veloh, da Perto, está acessível para deficientes visuais, com teclado em braile e sistema de voz

A Perto exibiu o terminal de captura de pagamento (POS) multifuncional Veloh, acessível para deficientes visuais, com teclado em braile e sistema de voz. A tecnologia pode ser empregada por correspondentes bancários e, agregada a câmeras, permite abrir conta, com geração de imagens de comprovantes de documentos. Também dispõe de teclado virtual, leitor de código de barra e QRCode e captura de cheque depositado com impressão no recibo e envio da imagem para o banco. (Martha Funke)