Ao sul da cidade de São Francisco, na Califórnia (EUA), a região do Vale do Silício provoca nos empreendedores digitais fascínio semelhante ao experimentado por um cinéfilo que põe os pés pela primeira vez em Hollywood. No Ciab FEBRABAN 2017, para medir o interesse das cerca de 300 pessoas presentes no painel “Estratégias de Inovação no Vale do Silício”, o diretor-executivo do banco Votorantim, Gabriel Ferreira, perguntou quantos já haviam visitado o mais famoso polo de inovação do planeta. Com brilho nos olhos, cerca de 30% da plateia ergueu as mãos. “Os jovens não sonham mais com trabalhar em consultorias, mas em tecnologia e inovação”, constatou Ferreira.

Atentos às transformações causadas pelos sistemas e processos de inovação, os principais bancos no Brasil têm buscado imitar, aqui, o ambiente propício a geração de conhecimento encontrado nas mais de 300 empresas de tecnologia digital que ocupam os três mil quilômetros quadrados das cidades que compõem o Vale do Silício. No caso do Banco do Brasil, apesar das restrições regulatórias de um banco público, como em caso de contratações diretas, a instituição abriu uma base em pleno vale californiano – o Laboratório Avançado Banco do Brasil (LABB).

O LABB fica dentro da aceleradora Plug and Play. Conta com um executivo expatriado e equipes volantes de cinco pessoas, que lá permanecem por três meses desenvolvendo projetos a serem aplicados no Brasil. “Nos EUA, eles se tornam empreendedores, não podem usar tecnologia ou sistemas do banco, apenas as ferramentas do Vale do Silício”, informa o diretor de Negócios Digitais do Banco do Brasil, Marco Mastroeni. As equipes recebem mentoria, trocam ideias com startups, assistem palestras no Google, Netflix e na Apple. “Retornam com a missão de transformar os conhecimentos em negócios”, explica Mastroeni.

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Marco Mastroeni diz que equipes que ficam no Laboratório Avançado Banco do Brasil (LABB) no Vale do Silício retornam com a missão de transformar os conhecimentos em negócios

Os projetos levados ao LABB surgem por meio do programa Pensa, que estimula a geração de novas ideias pelos funcionários. “No ano passado, tivemos a participação de 75 mil funcionários e foram catalogadas 5 mil ideias”, diz Mastroeni. Os projetos com foco em inovação são submetidos a um hackathon (maratona de programação) e vão para uma fase de pré-incubação. Após ser avaliado, cada projeto passa a ter um modelo de negócio e uma definição da proposta de valor, passando para a etapa subsequente, que é a aceleração no Vale do Silício. Nos próximos meses, o BB pretende ampliar o sistema no Brasil.

Por não ser possível criar no Brasil um ecossistema que reúna as principais companhias de tecnologia, a solução encontrada pelo Itaú Unibanco foi desenvolver um microcosmo no qual empreendedores, aceleradoras e investidores pudessem interagir como se estivessem em uma colmeia digital conectada 24 horas. Com esse espírito, desde 2015, funciona o espaço decoworking Cubo, uma parceria do Itaú Unibanco com o fundo de venture capital Redpoint eventures, que hoje conta com o apoio de 11 empresas, entre as quais a Mastercard, Microsoft, Rede, Accenture e Cisco.

Em um moderno prédio envidraçado de 5 mil m², na Vila Olímpia (zona sul de São Paulo), convivem 56 startups de diversos ramos (apenas quatro são fintechs). Circulam diariamente pelos seis andares do prédio cerca de 600 pessoas, das quais 350 participam de reuniões e workshops, 80% abertos ao público. Só que fazer parte deste seleto clube não é barato. O custo de um funcionário é de R$ 1 mil (por exemplo, uma startup com 5 funcionários paga R$ 5 mil de aluguel), o que não impede que haja permanente fila de espera por uma vaga.

“O primeiro ano do Cubo pagou quase 10 anos do investimento do Itaú Unibanco no projeto, tanto em imagens [institucional] como em receitas”, afirma Flávio Pripas, diretor do Cubo Coworking Itaú. De acordo com pesquisa interna do Cubo, o espaço já permitiu a contratação de 50 projetos entre o Itaú e startups. Antes do Cubo, tais contratos eram inviabilizados devido aos processos internos do banco, que exigiam requisitos impossíveis de serem cumpridos pelos empreendedores, como balanço auditado nos últimos três anos.

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Flávio Pripas, do Cubo, diz que espaço já permitiu a contratação de 50 projetos entre o Itaú e startups

Também buscando benefícios para o banco e acesso a oportunidades para o empreendedor, o Santander criou seu Radar Santander, em parceria com a Endeavor. Na primeira edição, o programa registrou 344 inscrições de startups (com predominância de fintechs) e selecionou cinco projetos, que deverão ser integrados aos sistemas e modelos do banco. “É uma iniciativa que antecipa mudanças de comportamento, aprimora os processos de gestão, melhora a relação junto aos clientes e ajuda na comunicação com os canais especializados do banco”, diz o superintendente executivo de Desenvolvimento Corporativo do Santander, Gustavo Bahia.

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Gustavo Bahia diz que o programa Radar Santander antecipa mudanças de comportamento, aprimora os processos de gestão, melhora a relação junto aos clientes e ajuda na comunicação com os canais especializados do banco

As cinco selecionadas foram a Moneto (aplicativo para microempresários), Pipefly (ferramenta de gestão e controle), Tempest (cybersegurança), Docway (aplicativo de saúde) e a Idwall (validação de documentos). “Com estas soluções, conseguimos entregar velocidade para os clientes, algo que empresas tradicionais não conseguem”, afirma Bahia.

No Bradesco, a porta de entrada das startups é pelo programa inovaBra, lançado em 2015. Além das fintechs, o programa busca soluções inovadoras para as demais áreas do grupo, como nos ramos de seguros e saúde. Em sua terceira edição, o inovaBra selecionou 10 startups, que passaram por um processo interno de “customização” (adaptação aos sistemas da instituição), processo no qual o banco investe até R$ 140 mil por empresa. “As aprovadas são contratadas como prestadoras de serviço e, em alguns casos, o banco faz aporte de capital pelo fundo inovaBra Ventures”, diz o diretor de Pesquisa e Inovação do Bradesco, Antranik Haroutiounian.

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Antranik Haroutiounian, do Bradesco, diz que startups aprovadas para o programa inovaBra são contratadas como prestadoras de serviço e, em alguns casos, recebem aporte de capital

No segundo semestre, o Bradesco irá ampliar a plataforma inovaBra. Será lançado o portal inovaBra Hub, onde empresas inovadoras estarão interagindo com startups e investidores, para agregar valor e gerar negócios. O banco deverá abrir, em Alphaville (Barueri), o espaço físico inovaBra Lab, com 2 mil m² de área, onde haverá a integração de das áreas de TI, de negócios e grandes fornecedores. “Vamos construir também o espaço inovaBra Habitat, para as startups”, revela Haroutiounian, sem fornecer detalhes ou valores de investimento.

Em parceria com a organização sem fins lucrativos Artemísia, a Caixa Econômica Federal selecionou cinco startups por meio do programa Desafio de Negócios de Impacto Social – Educação Financeira e Serviços Financeiros Para Todos. As startups eleitas irão receber até R$ 200 mil cada para desenvolver projetos-piloto, com duração de seis meses, com foco nos beneficiários dos programas sociais Minha Casa, Minha Vida e Bolsa Família.