Não vi nada que realmente traga valor aos consumidores.” Assim, de forma objetiva e categórica, o empresário mexicano Oscar Salazar, um dos criadores do Uber, se referiu às fintechs que atuam no setor financeiro, ao ser questionado sobre o tema durante o Ciab FEBRABAN 2017.

O empresário optou por fazer uma palestra de curta duração, 15 minutos, e durante uma hora e meia respondeu a questões da plateia, uma das mais lotadas da maior feira de tecnologia do setor. A declaração chamou a atenção em um momento em que o mercado avalia essas empresas e startups de outros segmentos como inovadoras, disruptivas e que avançam em segmentos em que tradicionalmente as grandes empresas andam em ritmo mais lento.

“A maioria das fintechs tem boas interfaces com o usuário, design interessante, acesso ao mercado, conteúdo, mas continuam provendo os mesmos serviços.” E completa: “Não vi nada mudando o status quo ainda”.

Salazar, que, além da Uber traz no currículo investimentos e participação em ao menos 30 empreendimentos de áreas que vão de lentes de contato descartável ao transporte de carga, coleta de lixo e e-commerce de verduras, acredita que os bancos têm espaço para ocupar um papel relevante no avanço de novas tecnologias e serviços. Mas ao mesmo tempo ressalta: “Todo mundo precisa de banking (serviços financeiros), mas nem todo mundo precisa dos bancos”.

“Os bancos deveriam se tornar plataformas abertas, uma vez que já fornecem os serviços, têm infraestrutura, os dados (data) e se relacionam com um grande número de clientes. Deveriam ser plataformas e deixar a nova geração criar serviços em cima dela”, diz o investidor, ao destacar o que a Apple fez ao criar o App Store. “A Uber não existiria sem a criação do App Store, uma plataforma que agrega soluções e todos os tipos de serviços.”

Um dos pontos a ser resolvido na implementação de tecnologia e parcerias inovadoras é a falta de sincronia entre as partes envolvidas no processo. “Há um problema de sincronicidade. As grandes instituições se movem devagar, e elas devem. As companhias menores (como startups) se movem rapidamente, e elas devem.”

Durante o evento, Salazar mencionou que o Brasil tem tecnologia e aplicativos interessantes no setor financeiro. “O app do Itaú é um dos melhores que já vi, ao menos a sua nova versão é bem desenhada. Mas me pergunto, podemos ir para o próximo nível?”, disse ao se referir à inovação e afirmar que ela necessariamente não precisa vir de dentro do setor – ou seja, dos bancos -, mas pode vir de fora – de todo um sistema que permite criar novas ideias e soluções.

O Brasil reúne as condições necessárias, além de ser um dos mercados mais preparados, para criar empresas e serviços realmente que tragam inovação a diferentes segmentos: profissionais e universidades de engenharia de qualidade, acesso a capital e investidores, e um mercado consumidor ávido por novidades tecnológicas.

“Sei da realidade e que há muitos desafios políticos. Mas sou um otimista e sei que, quanto maior o preço, maiores as recompensas”, diz. “Quando me perguntam por que investir no Brasil, se não sou louco, com tudo que está acontecendo aqui, digo que o mercado está pronto e as pessoas estão ávidas por mudanças.”

Sem detalhar o que vem por aí, o empresário mencionou que se dedica a projetos de machine learning, uma das tecnologias que, juntamente com a inteligência artificial, deve ocupar papel relevante nos próximos anos, principalmente em setores como saúde e educação.

Salazar também destacou a importância do blockchain: “É a maior inovação dos últimos dez anos, mas o problema é que as aplicações ainda são complexas e abstratas.” De acordo com o mexicano, a área de análise de dados tem potencial para criar novos modelos de negócios que podem transformar as indústrias. “Temos uma quantidade enorme de dados e somente poucas companhias que conseguem potencializar as informações que coletam. Vejo espaço para oferta de big data como serviço.”

Para quem pretende investir, a recomendação de Salazar é a mesma que ele levou em consideração ao ajudar a criar o Uber, quando ocupava o cargo de CTO (Chief Technology Officer, ou diretor de Infraestrutura Tecnológica) da companhia. “É preciso pensar no processo como um todo, construir somente a tecnologia não é a solução”, afirmou Salazar, ao explicar que, em 2009, no processo de criação do Uber, foram avaliadas as ineficiências, a falta de transparência e de qualidade no que era considerado um dos piores serviços do mundo – o de transporte sob demanda.

“Se for para criar algo, é preciso criar algo que vai mudar a maneira como as coisas funcionam, imaginar a uma experiência que seja ao menos dez vezes melhor do que a que já é oferecida”, afirma. Mas também é preciso levar em consideração, diz o investidor, que qualquer negócio depende dos resultados obtidos.

Disrupção, no vocabulário de Salazar, é uma palavra para “perdedores”. “A palavra que amo é inovação. Quando você diz disrupção é porque você está do outro lado, daquele que foi interrompido (do inglês disrupted). Alguém está comendo o seu bolo (aquele que você criou) e está fazendo você pagar por ele”, brincou.

Saiba mais

Quem é: Oscar Salazar Gaitan, um dos fundadores do Uber

O que: empresário, executivo e investidor em diversas empresas na área de tecnologia

Como: empregou os conhecimentos em telecomunicações e engenharia na concepção de produtos e sistemas inovadores, redesenhando a arquitetura do transporte sob demanda no mundo todo

Em que atua: foi fundador e CEO da Citivox, cofundador da Pager Inc., e recentemente da Ogon LLC, empresa de consultoria e assessoria estratégica, técnica e de marketing

Destaque: faz parte do conselho de diversas empresas e ONGs, apoia projetos filantrópicos nas áreas de educação, combate à pobreza extrema e igualdade de gênero

Formação: é graduado em Telemática pela Universidade de Colima no México, tem mestrado em Engenharia Elétrica e da Computação pela Universidade de Calgary, Canadá, e Ph.D. em Telecomunicações pela Paristech, França

Luiz Michelini / FEBRABAN

Para Oscar Salazar, a maioria das fintechs tem boas interfaces com o usuário, design interessante, acesso ao mercado, conteúdo, mas continuam provendo os mesmos serviços: “Não vi nada mudando o status quo ainda”