O uso do crédito consciente para evitar o superendividamento, principalmente em produtos como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial, é alvo dos principais programas e ações de educação financeira dos maiores bancos do país. O objetivo é incentivar o cliente a conhecer e migrar para linhas de parcelamento mais baratas e assim diminuir o comprometimento de sua renda.

Para ajudar a reduzir a vulnerabilidade financeira do consumidor, as instituições usam a tecnologia – por meio de plataformas virtuais, cursos online, web series e vídeos – com inovações que incluem central de atendimento com especialistas em crédito, capazes de interagir em tempo real com clientes e gerentes; medidas preventivas de combate à inadimplência, para os propensos ao endividamento; e programas em comunidades de baixa renda, escolas e ONGs.

Por meio da tecnologia, conseguimos aumentar a disseminação de informações e nos fazer presentes em diversos lugares

— Denise Hills, do Itaú Unibanco

As iniciativas dos bancos estão alinhadas às medidas anunciadas no final de dezembro pelo Banco Central para aumentar o nível de educação financeira do brasileiro, aperfeiçoar mecanismos de solução de conflitos e reduzir o custo do crédito.

O Itaú Unibanco planeja expandir neste ano ações do programa “Uso consciente do dinheiro” para os funcionários, que já teve 24 milhões de visitantes em seu portal desde 2011, e investir em projetos para mulheres empreendedoras.

“Por meio da tecnologia, conseguimos aumentar a disseminação de informações e nos fazer presentes em diversos lugares”, diz Denise Hills, superintendente de sustentabilidade e negócios inclusivos do Itaú Unibanco. “Nossa assessoria financeira é realizada via Skype, temos e-learnings (cursos online) e programa para colaboradores das empresas clientes com conteúdos no formato de vídeo.”

Com os sites Proteja, Invista e Crédito Consciente, o banco atingiu, em dois anos, 7,4 milhões de visitantes. Em 2016, a campanha “Vida Real” entrou no ar no canal do banco para mostrar histórias reais de pessoas e seus dilemas financeiros. A série já teve mais de 42 milhões de visualizações.

A falta de cultura financeira é um problema muito mais estrutural do que imaginávamos. O brasileiro ainda não está preparado para ter uma relação adequada com o crédito

— Raul Moreira, da Alelo

O Banco do Brasil criou uma central de atendimento com cem especialistas em uso responsável do crédito para reorientar quem ainda usa linhas de crédito mais caras – como rotativo do cartão de crédito ou cheque especial - e tem à disposição opções melhores de crédito pessoal ou consignado. Uma solução tecnológica permite à equipe atuar em tempo real, com as agências, para buscar alternativas aos clientes, considerando perfil, renda, endividamento e necessidade. O sistema foi batizado de “Melhor Oferta”.

As ações são parte da campanha Crédito Consciente, iniciada em 2015, quando o BB reestruturou o CRM (Customer Relationship Management ou Gestão de Relacionamento com os Clientes) e identificou “anomalias” no uso do crédito, nas palavras de técnicos do setor. Cerca de 6,5 milhões de clientes tomadores de crédito do BB (10% da base total do banco) já são abordados pelo CRM em diferentes canais (ATMs, extratos, app, internet) sobre a existência de linhas de crédito mais baratas.

Deste total, 2 milhões de clientes, que acessam regularmente o rotativo do cartão de crédito, em períodos de até 60 dias, quando deveriam usá-lo de forma emergencial, receberão mensagens por SMS a partir de março, com um contador que exibirá o tempo de uso do recurso.

Para João Carlos Gomes da Silva, do Bradesco, o endividamento é um caminho que leva as pessoas a perceberem o quanto é importante entender as mudanças, prioridades e excesso no consumo

“O cliente deixa de pegar um empréstimo disponível para quitar o rotativo ou cheque especial porque afirma que não quer se endividar; chega a pagar três ou quatro vezes mais (nos juros desses produtos) e não enxerga que já está endividado”, diz Raul Moreira, que até dezembro ocupava o cargo de vice-presidente de negócios de varejo do BB e hoje preside a Alelo, empresa de cartões-benefício, formada por Banco do Brasil e Bradesco.

O comportamento está em várias faixas de renda, instrução e idade. “A falta de cultura financeira é um problema muito mais estrutural do que imaginávamos. O brasileiro ainda não está preparado para ter uma relação adequada com o crédito”, afirma Moreira.

Para João Carlos Gomes da Silva, diretor de empréstimos e financiamentos do Bradesco, o endividamento é um caminho que leva as pessoas a perceberem o quanto é importante entender as mudanças de cenário do país, prioridades, excessos no consumo e controle financeiro.

O autoconhecimento das suas finanças e o envolvimento da família no planejamento são essenciais para evitar consequências negativas

— Linda Murasawa, do Santander

Com ações presenciais nos municípios, comunidades e associações, o Bradesco tem estimulado o uso consciente de recursos financeiros entre pessoas físicas e jurídicas. Desde 2010, foram realizadas mais de mil palestras com a participação de 32 mil pessoas.

“Atualmente, uma grande parcela da população ainda está fora do sistema financeiro devido a vários fatores, entre eles, a falta de conhecimento ou acesso”, afirma Silva. “O cenário apresenta grandes oportunidades para trabalhos como o que desenvolvemos.” De acordo com o executivo, mais do que fazer participar do sistema financeiro, é importante incluir as pessoas “de forma orientada e esclarecida”.

As ações virtuais e presenciais relacionadas à educação financeira do Santander atingiram cerca de 5 milhões de pessoas em 2015. Em plataformas digitais como o Portal de Sustentabilidade, o Santander oferece conteúdos voltados para o tema. O programa “Negócios e Empresas” aborda o assunto com pessoas jurídicas, e o portal “Conta pra mim” estimula a troca de ideias relacionadas à vida financeira.

A utilização de ferramentas tecnológicas para realizar a gestão financeira torna-se uma aliada no desenvolvimento da educação financeira no dia a dia

— Jeyson Leyser Cordeiro, da Caixa

“O autoconhecimento das suas finanças e o envolvimento da família no planejamento são essenciais para evitar consequências negativas, como o endividamento e a perda da qualidade de vida”, diz Linda Murasawa, superintendente-executiva de desenvolvimento sustentável e sustentabilidade do Santander.

Já a Caixa, com cursos e vídeos online e conteúdos de educação financeira em seu site, registrou mais de 350 mil acessos no segundo semestre de 2016. Apps como o Poupançudos e outro em desenvolvimento, com games para jovens e adultos, assim como ações feitas em escolas públicas e privadas, incentivam o hábito de poupar. Para instruir comunidades carentes e beneficiários de programas sociais, a Caixa fez parceria com entidades e empresas com projetos em finanças sustentáveis.

“A utilização de ferramentas tecnológicas para realizar a gestão financeira torna-se uma aliada no desenvolvimento da educação financeira no dia a dia”, diz Jeyson Leyser Cordeiro, superintendente nacional de estratégia para pessoa física da Caixa.

Saber escolher crédito adequado evita superendividamento

Programas de educação financeira orientam clientes, funcionários e toda a sociedade sobre o uso consciente do dinheiro.

Santander
  • Programa Parceiros em Ação para microempreendedores de comunidades de baixa renda
  • Portal Conta Pra Mim, para pessoas enviarem vídeos com dicas, e portal de sustentabilidade
  • Palestras para funcionários de empresas com a folha de pagamento no banco
  • Programa de Apoio Pessoal com atendimento e suporte a funcionários que precisam de orientação financeira
  • Escola Brasil
Itaú Unibanco
  • Ação preventiva aborda clientes que demonstram propensão à inadimplência e oferece produtos mais adequados
  • Portal interativo Uso consciente do dinheiro com assessoria financeira via Skype, cursos, entre outras ações
  • Ação voluntária com a Fundação Itaú Social para jovens de ONGs e escolas públicas de São Paulo
  • Campanha “Vida Real” com web serie e histórias reais de pessoas, e plataforma “Mito ou Verdade Itaú” para esclarecer dúvidas
  • Plataforma de e-learnings para funcionários com videoaulas, cursos e assessoria confidencial
  • Programa para colaboradores de empresas clientes disponível para mais de 700 companhias com PABs (postos de atendimento bancário)
Bradesco
  • Portal com foco na importância do crédito responsável e no controle da vida financeira
  • Atendimento personalizado de acordo com perfil e atividade econômica para apoiar o desenvolvimento de clientes pessoa física ou jurídica
  • Programa com palestras em feiras e eventos em parceria com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas)
  • Ações presenciais em municípios, comunidades e associações para estimular o uso consciente dos recursos financeiros
Banco do Brasil
  • Central de atendimento com especialistas em uso do crédito orienta clientes que usam rotativo do cartão de crédito e cheque especial a migrarem para linhas mais baratas
  • App gerenciador de finanças pessoais para mobile será lançado neste trimestre
  • App Trato ensina pais e filhos com jogos e tarefas sobre educação financeira
  • Universidade do Cliente, com portal para universitário e ações como o Pensa Universitário, que premiará ideias voltadas à inovação bancária
  • Portal de educação financeira do site com cursos, dicas e jogos para mobile que ensinam crianças sobre a importância de poupar
CAIXA
  • Site orienta sobre crédito e ações para não bancarizados, como abertura de conta para beneficiários de programas sociais
  • Projeto de aceleração de startups desenvolverá ações e soluções de finanças sustentáveis em comunidades carentes
  • Projeto TIM Multibank Caixa com cursos para moradores de comunidades no RJ busca a inclusão financeira, com acesso a conta pré-paga no celular
  • Programa Poupançudos nas escolas de ensino fundamental e palestras para alunos de graduação, 2º grau (período noturno) e prestadores de serviço da Caixa
  • App que incentiva jovens e adultos a poupar, por meio de games, está em desenvolvimento
  • Cursos online e presencial, videoaulas, palestras, dicas em extratos também são iniciativas usadas para educar o consumidor