As fintechs, startups financeiras com estruturas enxutas e forte apoio de novas tecnologias, estão no centro das atenções do mercado financeiro por oferecerem produtos e serviços personalizados com custos reduzidos. Entretanto, na hora de adquirir um novo serviço digital, o cliente prefere fazê-lo a partir da própria instituição financeira em que é cliente ou por meio de um fornecedor que seja tradicional como os bancos. O comportamento foi identificado em 75% dos entrevistados na pesquisa Fintechs Disruption in Financial Services – a Consumer Perspective, feita pela empresa CGI nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Suécia e Cingapura. E no Brasil, o cenário é semelhante.

Para Guilherme Horn, da Accenture, a parceria entre bancos e fintechs permitirá que as instituições financeiras tradicionais desenvolvam produtos centrados no cliente

Júlio Carvalho, da CA Technologies, afirma que o Brasil adota novas tecnologias de forma gradativa

Para Augusto Kaway, senior director consulting da CGI, muitas fintechs ainda não têm a transparência necessária - um dos principais ativos das instituições financeiras - para ganhar a confiança dos clientes. “O cliente quer que o banco o ajude na gestão da vida financeira; cada dia mais, busca facilidade pela sua fidelidade”, enfatiza. A segurança das operações, na opinião do especialista, é o grande ativo dos bancos. “E eles não podem perder isso.”

O estudo World Fintechs Report 2017, realizado pela Capgemini em parceria com o LinkedIn, reforça essa premissa. Apenas 24% dos consumidores entrevistados confiam nas startups financeiras. “No Brasil, o cenário das fintechs ainda está na fase de experimentação”, afirma Rodrigo Corumba, vice-presidente de serviços financeiros da Capgemini Brasil. “Os bancos brasileiros são vistos como modernizados, porém ainda há oportunidades de melhoria no relacionamento com os clientes, momento em que as startups podem ajudar.”

O consumidor brasileiro tem um perfil bastante sensível à inovação e é atraído por ela. Segundo levantamento da Pew Research Center (PRC), o Brasil ocupa o sétimo lugar no consumo de internet no mundo. Porém, segundo Júlio Carvalho, diretor de pré-vendas de segurança e API managment da CA Technologies para a América Latina, o país adota novas tecnologias de forma gradativa. “Não é comum, por exemplo, um correntista brasileiro encerrar sua conta em uma instituição financeira tradicional antes de testar e comprovar a eficiência de novos serviços, seja de uma fintech ou de um novo banco digital.”

Fonte: Finnovation (em conjunto com o Finnovista e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento)

Para Rodrigo Corumba, da Capgemini, o cenário das fintechs no Brasil ainda está na fase experimental

De mãos dadas

A postura do novo consumidor, que quer serviços mais ágeis, soluções brasileiras, de modo geral, mudassem de postura e olhassem as fintechs como possíveis parceiras, não mais como competidoras.

Segundo Moutusi Sau, analista de pesquisa do Gartner internacional, um relacionamento mútuo entre bancos e fintechs é benéfico para o consumidor. “Enquanto as fintechs se beneficiam da base de clientes dos bancos, as instituições financeiras testam e afinam novas tecnologias.”

Para Augusto Kaway, a segurança das operações é o grande ativo dos bancos

Com as fintechs, os bancos podem incluir em seu portfólio cartão sem taxas, microsseguros e empréstimos com taxas competitivas para a população não bancarizada

— Paulo Marcelo, CEO da Resource

Quando não estão trabalhando em conjunto com as fintechs, muitas instituições financeiras criam suas próprias startups ou investem em incubadoras em busca de inovações. Moutusi destaca o sucesso de iniciativas de bancos brasileiros, como o laboratório do Banco do Brasil no Vale do Silício (EUA), e a criação do Cubo, incubadora mantida há cerca de um ano pelo Itaú. “O Bradesco também está colocando suas APIs (Application Programming Interface) à disposição das fintechs, incentivando-as a desenvolver e experimentar várias oluções para o banco”, destaca.

Para Kaway, da CGI, o sistema financeiro brasileiro está um passo à frente nesse relacionamento com as fintechs, mesmo lidando com alguns pontos delicados, como a questão cultural. “Há um legado deixado da época dos mainframes, além da cultura interna: os bancos já estão começando a flexibilizar seus processos, mas precisam adotar a mesma postura com seus ativos de TI.”

Na opinião de Rodrigo Corumba, da Capgemini, a terceirização de serviços para essas fintechs é outra opção a ser adotada pelos bancos, “principalmente para serviços das áreas de cobrança, recuperação de crédito, liquidação de tesouraria, funding para operações de crédito, entre outras”.

Fontes: Fintech Disruption in Financial Services – a Consumer Perspective (CGI) e World Fintech Report 2017 (Capgemini)

Perspectivas

Na opinião dos especialistas ouvidos pela revista Ciab FEBRABAN, o futuro do relacionamento entre fintechs e bancos é definido em uma palavra: colaboração. Para Guilherme Horn, líder de inovação aberta da Accenture para a América Latina, os bancos podem aprender com o “ mindset (mentalidade) das fintechs”. “Isso permitirá que as instituições financeiras tradicionais desenvolvam produtos centrados diretamente no cliente.”

A evolução desse relacionamento possibilitará ainda que os bancos tirem proveito de um mercado que apresenta potencial de expansão: os serviços financeiros voltados para a população de baixa renda que ainda não está no sistema bancário convencional. “Com as fintechs, os bancos podem incluir em seu portfólio cartão sem taxas, microsseguros, empréstimos com taxas competitivas, permitindo a inclusão dessa população não bancarizada”, conclui Paulo Marcelo, CEO da Resource.