O Bitcoin trouxe inovações capazes de revolucionar o sistema financeiro, mas está longe de ser uma tecnologia perfeita. Desde que a criptomoeda ganhou popularidade, engenheiros e programadores tentam criar alternativas capazes de superar alguns dos seus problemas e, com isso, inventar a moeda digital definitiva. Duas delas ganharam espaço no ano passado, por garantirem o anonimato das transações: o Monero e o Zcash.

Criado em 2014, o Monero tornou-se um sucesso no segundo semestre de 2016, ao ser aceito por dois mercados ilegais da internet, o Oasis e o Alphabay – ambos interessados na sua capacidade de encobrir a identidade dos usuários e o valor das operações. Em outubro surgiu o Zcash, com a proposta de resolver um problema que dificulta a adoção do blockchain por instituições financeiras: o caráter público de todas as informações registradas.

João Paulo Oliveira, da Foxbit: tecnologia que permite anonimato das transações pode ajudar os bancos a usar o blockchain

O Zcash permite registrar as transações e comprová-las, mas observadores externos não podem ver as quantias trocadas ou as identidades dos envolvidos. As informações, no entanto, podem ser fornecidas para órgãos de fiscalização. “O blockchain do Bitcoin é totalmente público e transparente; todo mundo sabe de tudo”, explica João Paulo Oliveira, sócio-diretor da corretora de ativos digitais Foxbit.

De acordo com o executivo, em um ambiente de um blockchain privado, onde um banco faz uma transação com o cliente, em princípio, a instituição não gostaria que outro banco soubesse daquilo. “Ele precisa provar para todo mundo que aquela transação foi feita, está segura, mas não quer revelar quem é o cliente ou o volume da transação”, afirma. “O Zcash permite fazer isso. Foi um avanço tecnológico criptográfico”, complementa.

O desenvolvimento do protocolo do Zcash começou há três anos e envolveu pesquisadores das Universidades Johns Hopkins e de Tel Aviv e dos Institutos de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e de Israel (Technion). Quando o Zcash saiu do papel, seu valor disparou e chegou a valer mais de 3 mil Bitcoins – no fechamento desta edição, a cotação do Bitcoin era de R$ 2,928. Depois que a especulação passou, o preço despencou para menos de 1 Bitcoin.

Isso não significa que a moeda tenha perdido importância, mas que passa, ainda, por uma fase instável. Oliveira, da Foxbit, aposta que o Zcash vai se recuperar. Ele também acredita que as inovações trazidas deverão ser analisadas mais de perto por instituições financeiras e órgãos governamentais. Por trás da critptomoeda está uma startup, a Zcash, o que pode favorecer acordos e parcerias.

O Monero tem uma história semelhante. A preocupação com a privacidade, tanto das transações como das partes envolvidas, está presente desde que a criptomoeda foi criada. Não é possível acompanhar o que está acontecendo no blockchain e, por isso, mercados ilegais passaram a adotá-la no ano passado. “O Monero tem o espírito da internet livre”, afirma Paschoal Baptista, sócio de serviços financeiros da Deloitte. “Os algoritmos deles não são baseados no mesmo modelo do Bitcoin.” No entanto, assim como no Zcash, quem faz as transações sabe exatamente quanto foi transferido e de onde veio o dinheiro – o anonimato é apenas para quem não participa do negócio.

Jonatas Leandro, da IBM: criptomoedas que ocultam identidade e transações estão mais próximas do dinheiro real

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Zcash, Monero e outras criptomoedas que prometem sigilo total esbarram, no entanto, em uma particularidade: é preciso converter dinheiro real em virtual para operar com cada uma delas e, nesse processo, não há segredo. “Todas as corretoras que trocam dinheiro por Bitcoin ou outras moedas hoje têm a preocupação de fazer uma política de know your customer (conheça o seu cliente)”, destaca Baptista, da Deloitte.

Embora isso não seja obrigatório, é uma maneira de evitar problemas no futuro – inclusive com as autoridades, que podem investigá-las. “Ao lembrar de blockchain como a internet dos valores, na hora em que entrar um bem é preciso saber que ele é legítimo, que existe”, diz Baptista. Logo, a privacidade não é completa. Mas, uma vez que uma quantia estiver convertida em Monero ou Zcash, acompanhar o trajeto posterior desses recursos é muito difícil.

Por esse motivo, as duas criptomoedas estão mais próximas do dinheiro em papel do que o Bitcoin. Imagine que você recebe uma cédula de R$ 100 e faz compras com ela. Dificilmente alguém conseguirá acompanhar tudo o que foi feito com essa nota, sejam transações legais ou criminosas. “As criptomoedas tentam, com toda a tecnologia adotada, reestabelecer um modelo de intercâmbio financeiro que a gente conhece há milhares de anos, com dinheiro vivo”, explica Jonatas Leandro, consultor da IBM Brasil para Blockchain.

Mesmo com o sucesso recente, ainda é cedo para saber se Zcash ou Monero vão vingar. “Moedas têm surgido, ganhado hype (fama) e na sequência entram numa velocidade de cruzeiro ou numa queda às vezes pouco acentuada, mas com participação de mercado muito pequena”, afirma Leandro. O grande teste será quando existir um grande volume de operações, algo distante, por enquanto.

Ainda é cedo para se preocupar com essas e outras criptomoedas. O volume de transações, hoje, levando-se em conta todas as que existem, é muito reduzido para oferecer risco ao sistema financeiro. “Como têm baixa escala, nessse momento, elas não têm chance de gerar um colapso, de criar uma grande confusão”, diz Rony Sakuragui, gerente de pesquisa e inovação do Bradesco. Para o executivo, as vantagens trazidas por Zcash e Monero também não significam que uma delas vai se tornar a principal moeda digital do mundo. “Em tecnologia, muitas vezes, um padrão vinga não somente porque ele era o melhor, mas porque já tinha uma adoção muito grande.” Nesse caso, o Bitcoin saiu na frente.

Paschoal Baptista, da Deloitte: corretoras estão preocupadas em garantir o know your customer, o que tira parte do anonimato

Os bancos vêm acompanhando essas inovações bem de perto e estão dispostos a experimentar as novas tecnologias, ajudando a criar modelos disruptivos que poderão ser usados no futuro. O Santander, por exemplo, criou um laboratório na Espanha que permite a clientes fazerem a conversão de dinheiro em outra criptomoeda, a Ethereum. “Precisamos ter o espírito de uma grande fintech”, afirma Richard Flávio da Silva, superintendente executivo de tecnologia do Santander.

Uma vez que estejam participando desse processo, os bancos não vão deixar de lado suas obrigações, como prevenir a lavagem de dinheiro e praticar o conceito de know your customer. Isso dificultaria o uso de Monero ou Zcash para atividades ilegais nessas instituições.

Risco é do usuário

Hoje existem mais de mil criptomoedas diferentes, todas elas criadas com o objetivo de atender a uma necessidade específica ou aprimorar a tecnologia para transações virtuais. De acordo com a assessoria de imprensa do Banco Central, a instituição se pronunciou sobre a aquisição de moedas virtuais no Comunicado nº 26.306, de 19 de fevereiro de 2014. O documento afirma que não há garantia de conversão para moedas oficiais por nenhuma autoridade monetária, ou seja, não há qualquer regulação ou supervisão. Por isso, diante das grandes variações de valor dessas moedas, o risco é todo do usuário.

A assessoria ressaltou ainda que o uso de critptomoedas em atividades ilícitas pode resultar em investigações. Se forem feitas operações por instituições autorizadas a operar pelo Banco Central, elas estarão sujeitas também a supervisão por meio de instrumentos já existentes – incluindo regras de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.